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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Oficina de zine - 05fev

A segunda oficina oferecida pelo projeto, sendo a primeira com o tema zine. A princípio, seriam 4 dias de oficinas, divididas em dois momentos: caminhada fotográfica e produção de zines. Com o avanço das pesquisas e a percepção das dinâmicas de tempo, optamos por explorar apenas um tema em cada encontro, sendo duas de fotografia e vídeo no celular, oferecidas por Nubia Abe e duas de zine e publicações independentes, oferecidas por Luara de Almeida.


O intuito foi criar um pequeno ateliê de criação, disponibilizando zines para leitura e consulta, material para desenho e colagem, além de máquina de escrever, impressora e xerox, recursos que foram usados com entusiasmo pelos participantes. O espaço, colorido e bem iluminado, foi convidativo, bem como ter um balcão com alimentos e bebidas. O programa previa um momento para comermos juntos, num pique-nique, mas percebemos que os adultos, em sua maioria responsáveis pelas crianças, se reuniram ao redor do café, criando um outro espaço de intimidades, no qual conversamos, conhecemos histórias e compartilhamos os quitutes, que ocasionou maior liberdade para as crianças interagirem entre si e com as participantes.



A maior dificuldade encontrada foi o quesito divulgação. Uma das estratégias que encontramos foi a inscrição por WhatsApp, e criação de grupos para discutir as temáticas a serem abordadas nas oficinas. Apesar de ter sido veiculada nas redes sociais (Facebook e Instagram), além de cartazes espalhados pela vizinhança, a maior parte do público era composta de pessoas que estavam passando pelo parque durante a atividade e foram convidadas a fazer parte do grupo. Diversas pessoas passaram pelo espaço, sendo que onze delas produziram materiais – em sua maioria crianças. Também por serem grupos espontâneos, surgiu a dificuldade de oferecer uma oficina única e linear; ao invés disso, cada grupo foi recebido pelas integrantes do coletivo, estimulados a produzir individualmente.


A série “O guia definitivo da zine”, criada com o intuito de ser material de apoio para as discussões nas oficinas se tornou uma “lembrancinha”, juntamente com outras zines produzidas durante o projeto. A dinâmica dos grupos não propiciou a discussão teórica, mas creio que em nada diminuiu o valor das produções.
                    

O resultado da oficina foram 11 materiais produzidos, entre colagens, ilustrações e zines. Sobretudo, acredito que o intuito do projeto, de cartografar afetos se fez presente durante as discussões, as conversas compartilhadas, as diversas histórias de pessoas que vieram de longe, como Ferraz de Vasconcelos, as famílias que vão ao parque todo final de semana, conhecer pela narração da sobrinha a história das tias, que querem ser escritora e veterinária, as trajetórias de Dona Ana, que gosta de melão japonês, o ciclista que tem duas filhas felinas e fez uma zine de reconciliação para a esposa. Novamente, nos encontramos num lugar de convergência de histórias, compartilhamento de intimidades, cartografia afetiva.   

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

o que esteve acontecendo // arremate de inverno


A pesquisa com zines finalmente começou a render frutos. Algumas compras foram efetuadas, o acervo começou a ser construído com as obras que serão referência nas oficinas. Existem alguns requisitos que estão sendo levados em conta para adquirir as zines, ainda que alguns exemplares não contemplem todos os itens:
  • valor: até R$10 (alguns exemplares foram mais caros)
  • variedade de técnicas
    • suporte (os papéis, as dobraduras, a complexidade das dobras/ costuras)
    • técnica (fotografia, ilustração, texto, tipos de impressão, carimbos, adesivos)
    • temática (arte, contra cultura, feminismo, poesia)
  • abranger a maior gama possível de possibilidades, para tornar a oficina um caldo criativo.
Grande parte do acervo foi adquirido via facebook e na feira Tijuana, que aconteceu dias 3 e 4 de setembro na Casa do Povo. Visitar a feira foi de extrema importância para o processo criativo. Entrar em contato com artistas de todo o Brasil, discutindo assuntos diversos, confluentes, a repetição dos signos. Foi muito prazeroso perceber as descobertas e pertencimentos desses movimentos autônomos, interligado pelas pesquisas, referências, temáticas. Das diversas coisas maravilhosas que eu vi, três me chamaram muito a atenção. 

cartografia do tempo, marrytsa melo, nano editora. 
Além do nome que me afetou instantaneamente, a autora me contou a história da concepção da zine (que eu demorei muito pra escrever e já não lembro direito, parabéns Luara, mas vou averiguar com ela). 
A zine foi concebida no Rio de Janeiro, paredes antigas e descascadas foram fotografadas. As topografias desgastadas foram reunidas nessa zine de dobradura clássica, impressa em papel brilhante, com lacre transparente. Fiquei principalmente surpreendida com a beleza de uma zine muito simples, sem palavras e o impacto que ela causa. 
Me lembrou também algumas das fotos que estava fazendo para o projeto, como sempre achei muito auspicioso, gosto quando acho uma ideia igual a minha que outra pessoa pensou sozinha, me sinto mais confiante.

mirante, luciana miyuki, kamikaze publicações.
O que me atraiu inicialmente foi o formato: eu adorava fazer flipbooks em post-its quando estava na escola, foi muito inspirador encontrar esse formato em 2016 nessa altura com campeonato. Já comecei a esboçar os flipas para o projeto e acredito que pode ser uma série muito bonita. 
O que mais foi surpreendente é que fui descobrindo muitas confluências com o trabalho da luciana,  muitos dos conceitos que quero explorar no meu trabalho gráfico aparece nas produções dela. Desvio, suportes sobrepostos, trajetos. Sem contar que descobri essa coisa maravilhosa que é a mostra nacional de gif que me deixou cheia de ideias e planos futuros. Sempre muito legal quando um objeto é na verdade uma chave de portal. 
ituiutaba, elisa freitas, editora criatura.  
Por último mas não menos importante, essa zine maravilhosa que é a própria cartografia afetiva da cidade em que cresceu, onde os pais moram até hoje. A artista trabalha com fotografia pb, e fez esse trabalho muito delicado de contar a história de uma cidade. Permanência e degradação, a tranquilidade, um tempo bem lento ficam colados depois de passear pela zine. 
Uma das coisas que eu mais gostei, enquanto a gente conversava, foi que quando o pai viu a zine pronta, ele não gostou, porque a cidade não é assim. Fiquei pensando sobre as diversas cidades que cada um de nós habita, e que presunçoso de minha parte querer fazer uma cartografia afetiva desse bairro. Entretanto, me senti mais instigada a procurar as alternativas para narrar essas histórias. 
Ainda não li quase nada das zines que comprei, mas conforme for lendo vou escrevendo sobre as mais emocionantes. 



A primeira zine com o título trajetos celulares // memória na leste foi produzida para a avaliação do projeto dia 29.08. Queria fazer uma zine que reunisse um pouco do que foi criado até agora, além de ser explicativa. Ela foi feita a mão e fotografada, os textos corridos foram inseridos digitalmente. Tem sido muito prazeroso olhar pra ela, foi uma concretização muito importante para todo o meu processo produtivo. Me dei conta que já posso começar a produzir com o material que tenho. Vou me focar nas séries, porque vai ser legal agrupar as zines de alguma maneira (já que invariavelmente temas e formatos vão se repetir), além de criar portfólio e material de exposição. Os flipabooks vão ser um formato (aliado ao gif), gostaria de trabalhar com um formato maior para as vistas, talvez postais (juntamente com pinlux de pontos marcantes do bairro).  Fiquei com vontade de fazer quebra-cabeças também, mas são por sublimação. Talvez não sobre grana pra tudo isso, mas sonhar é free.
Tem sido interessante pensar que primeiro foi preciso ajuntar um monte de material sem sentindo, mas que finalmente as coisas estão se encaixando e virando produtos, objetos, lindezas. Agora é mais fácil criar as divisórias, as hashtags, categorias da vida real. O trabalho passa a ter um corpo e ser por si só uma narrativa. As possibilidades de narrativas não verbais abrem outras possibilidades de existências e transposições pelo mundo.
Percebo como minhas técnicas evoluindo, o site ficou bonito. Curti meu trampo. (: Mesmo que ele esteja engatinhando, é legal perceber que a minha estética atrai as pessoas, cativa, estimula a interação. Me sinto mandando bem, apesar de todos os pesares. Acho que esse é o momento de começar a subir material para o site e ver o que rola. Pode ser que um caos controlado (bem meu tipo) seja uma plataforma interessante.


 É isso que eu tenho feito. Gosto de fazer esses apanhados gerais porque acabo percebendo que tem muito mais estrutura no projeto do que eu imagino, e que ele de alguma maneira se sustenta. Também percebo a minha crianção se refinando e estabelecendo diálogos internos.

Agora só vamos.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

pesquisas sobre zines e fermentação de ideias // o que que eu vou fazer com essa tal liberdade?

Cá estou produzindo no último minuto porque né (se um dia eu lembrar, fotografarei a tirinha do Calvin de vivendo e não aprendendo para ilustrar não só essa postagem como a minha vida). A oficina de zines tem existido na minha cabeça desde que soube que o projeto existia, mas não passou de uma vaga lembrança - até agora. Fui convidada pra dar uma oficina de zines no Museu Afro Brasil porque a Nega Preta chegou lá e foi apenas sucesso. Essas coisas que dão um gás, um ânimo, uma vontadezinha de existir.
Mas bem, vou dar uma oficina DE QUE? D:
Desde o começo, eu queria ter uma zine minha falando sobre como fazer zines (se der um ruim e eu ficar nervosa e falar tudo nadav pelo menos tem uma chance de eu continuar a oficina porque as informações tão lá, já).

Acabei de descobrir que to fazendo o mesmo formato AND tema que essa zine maravilhosa aqui. Sincronicidade da sequela.

Bom, enquanto segue o baile ainda estou tentando fazer a tal zine. Quero fazer um apanhado de ideias sobre fazer zines, um lado todo feito a mão e um lado só de prints e coisas digitais, afinal de contas pensar apenas em zines feitas só a mão é subestimar a galera, né. 


cafeína zines: lista de zineiras 
capitolina: zine 1 e zine2 
zines livretos: modelo de oficina e 150 minutos
zine a rodo: publicações em serigrafia (me inscrevi mas acho que preciso ter um portfolio decente)
tiny books (pinterest)
gabriela bruzadin: zines (modelo de portfolio)
rizoma: minizine/ porque estamos nas ruas 


oficina de zine // museu afro brasil



Já é agosto e finalmente consegui começar a me preparar para as oficinas do projeto. Tem muita coisa ainda para ser feita, mas sinto que consegui dar um passo importante para a minha formação que foi a oficina de zines no Museu Afro Brasil. A Amanda, que trabalha no educativo, conheceu a Nega Preta, e nos conhecemos na exposição da Rosana Paulino, quando ela sugeriu que eu desse uma oficina. O tempo, esse safado, calhou dela me convidar para a oficina na semana seguinte a Distúrbio Feminino, quando voltei a produzir. Tive 3 dias para me preparar, e parte da mágica estava aí: eu precisei desdobrar o tempo (e o espaço, pensando que eu estava de mudança montada) para conseguir estar lá. Foi tão mágico que eu consegui, sem fritar de ansiedade. Ainda consegui um floral na quinta, foi uma semana bem amarrada. Mas eu estava cansada demais, então teve pouca organização e poucos registros. 
Nesse post fazer a retomada do processo e algumas das minhas percepções e perspectivas.

27/07 - quarta






A proposta de data era na sexta-feira, 29, às 12h, e acho que a emoção do último minuto falou mais alto e eu topei. Foi ótimo ter um objetivo, poder focar em algo. Como eu já estava na onda da semana anterior, cheia de zines novos e Negas Pretas dobradas, senti que tinha o que eu precisava e prontas nunca estamos mesmo, então só vai. Aproveitem a urgência de tudo pra retomar a minha agenda, consegui fazer tudo num tempo bacana, sem sofrer e nem deixar nada pelo caminho. Foi exaustivo, mas totalmente valeu a pena, sentimento de MANDEYBEIN acima de tudo. 
Eu não tinha certeza de como me preparar pra oficina em tão pouco tempo, então foquei em produzir o material que eu queria, que fosse um guia para que eu lembrasse de falar sobre todos os assuntos que acho importantes para se falar de zine. Apesar de não ter conseguido usar a zine como eu queria, foi bom tê-la pronta, acho legal que as pessoas possam levar algum material para servir de instiga pra casa. Também comecei a pensar recursos para dar condição de usar esse material. 



Na quarta feira eu fiz a frente de um a4. Comecei pensando um título, e aproveitei que gosto muito do formato de excesso de nomes, resolvi usar esse recurso - o que acabou ajudando muito no desenrolar da produção. Além disso, consegui deixar só os títulos que de alguma maneira fazem gancho sobre algo que eu gostaria de falar na zine. Uma das falhas dessa oficina foi não delimitar um tempo para que explorássemos conjuntamente a zine. 
Como queria achar uma dobradura diferente das que eu conheço, fui experimentando. Por conta da falta de tempo, eu já queria produzir tudo no formato escolhido pra evitar de precisar ir até a gráfica scanear e montar no photoshop. 



Decidi usar o maior número dos recursos que eu acho importantes e que coubessem no a4, para que ela funcionasse sozinha como um guia-instiga sobre produção de zines. Usei o acervo que tinha mais a mão em casa: revistas antigas, uns livros de medicina e biologia dos anos 80, piauí, manuais de instruções de eletrodomésticos antigos, um dicionário. Eu não tinha planejado como a zine seria, mas eu queria um lado só de recorte e cole (o outro, inicialmente, eu queria que fosse de prints, mas acabou que a pesquisa estava chata e redundante, faltou a espontaneidade que funciona bem tanto para os recortes quanto os prints, embora a ideia de uma zine de prints/ wpp tenha ficado mesmo na minha cabeça). 



Eu queria trabalhar com conceitos do dicionário por vários motivos: "zine" e "fanzine" não são verbetes, e a falta de definição é muito importante para que o estilo seja livre e as várias possibilidades estéticas, temáticas e de divulgação sejam tão amplamente apropriadas por muitos grupos urbanos. Além disso, é legal perceber as cagadas que estão escritas no dicionário e, assim, se tornam verdades, como "criar: tirar do nada". Partir do princípio que a criação vem do nada e quem cria algo viveu o mundo, aprendeu conceitos, experimentou arte, ciência, conceitos, enfim. Em algum momento do processo, decidi fazer uma criação a partir da cópia e da ressignificação, o que muito me agrada, afinal existe abundância e saturação de imagens, produções, propagandas no mundo. 
Estilisticamente, prefiro a sobrecarga de informação ao vazio, embora saiba que artista deixa bordas brancas e valoriza o objeto central entre outras coisas, eu curto a baratinação, a confusão, não saber pra onde olhar, a pancadinha no cérebro. Por isso, foquei a procura em: texturas e imagens de fundo, textos ou frases que trabalhassem direta ou indiretamente os assuntos dos verbetes recortados. Para as imagens, procurei os clichês, nesse momento eu ainda estava pensando em trabalhar com prints e queria explorar o conceito de meme. Um dos recursos que acredito ser muito interessante para zines é explorar essas imagens que repetidamente são usadas, para que seja um material mais universal, que não use linguagens específicas de certos grupos ou datadas.

Na oficina, eu gostaria de ter explorado mais o formato "manual de instruções", por dois motivos: 1. esse é um formato que é íntimo da maioria das pessoas, seja o manual que ensina a montar ou usar algum aparelho, seja o livro de receitas que ensina passo a passo a feitura de uma comida e 2. porque foi muito legal recortar os manuais que achei em casa, que geralmente viram lixo (assim que o equipamento funciona). É um uso inteligente de recurso barato. 

verso da zine

A mídia líquida era o gancho para falar sobre massificação midíática: os formatos engessados do que e como noticiar, a transmissão da informação que se pretende definitiva, verdade, absoluta, etc etc etc e como a zine, por não ter editor, não visar lucro, não ter um público com expectativas permite mais autonomia dos assuntos, não necessariamente chegar a um objetivo, não ter idéias definitivas e redondas. Traduzindo em miúdos, dá pra fazer o que quiser, como quiser, e difundir sem se importar com o efeito final. Mas acabou que as propagandas foram uma fonte de risos, achei legal corromper esse formato, sem a pretensão de soar verídico.



28/07 - quinta

Nanquim, sumi-e e sharpie sobre canson,
21 x 29,7cm
.
A frente da zine estava linda e empaquei com o verso. A idéia que parecia tão genial de fazer uma ziniprints se mostrou muito diferente do que eu tinha imaginado, e não sabia qual era a alternativa, até a maravilhosa Soso me dizer: faz um cartaz no versooooo, o que obviamente é um conselho de zineira que manja das parada. O cartaz no verso tem uma enorme utilidade prática: não é preciso coordenar os cortes da frente e do verso, e as impressões invertidas não impossibilitam o corte da zine. Definido que o verso seria um cartaz, foquei em produzir um desenho, que foi um autoretrato. A partir dele desenvolvi o verso, mais autoral que a frente, o que também é uma característica do meu trabalho. Usei papéis da minha coleção, desenhos que foram produzidos em outras situações, recortes botânicos, todo em preto, branco e vermelho, meu atual estudo de cores, com bastante coisa escrita a mão, explorando caligrafia, outra gama de recursos para zine que é a edição e curadoria dos seus próprios materiais, que permite um exercício de intimidade com "o artista". O Leonilson certamente é um referência nesse quesito, e acho que o Sidney Amaral está vindo a ser também.

Fiz dois carimbos de stencil, "ERRE ERREMAIS ERREI" e "CÓPIA É AFETO". Foi o cantinho total experimental da zine. Gostei do resultado, quero explorar como possibilidade.






Além disso, explorei nessa zine também a dedicatória. A Nega Preta tem 3 dedicatórias, mas porque foi mesmo feita para aquelas pessoas, era parte do processo de entendimento e aceitação da morte do meu avô. Essa é uma zine de trabalho, ao mesmo tempo que é uma zine que reúne aprendizados, discussão teórica, práticas de todo tipo. De novo eu citei a Silvana, que é a minha artista favorita e volta e meia me presenteia com uma perolinha de sabedoria, presumindo que as nossas estratégias de sobrevivência e acertos dentre os erros são também os nossos diálogos sobre arte. Não fosse Sirvana e suas sementes-pérolas, nunca haveria VAI. Lembrando o Leonilson que tem sido uma das chaves da minha pesquisa/delírio, o desvio pelo qual passo infinitas vezes, "às vezes eu acho que gosto das pessoas só pelo tanto que eu posso dedicar trabalhos a elas", e nesse exercício de cultivo, de preservar relações e gostar das pessoas, achei que era importante dedicar essa zine, que também é síntese e resultado de um processo, algo enorme transformado no simples. Essa zine é pros carneiro que estão longe. Essa zine é pro Bóris, que tem sido parceria e estímulo nesse processo de reconhecimento e criação da persona artista. Essa zine é pra Lauris, que veio me ver e eu não pude, nessa semana mesmo, e tem sido escuta e pé no chão, e tanta compreensão nesse abraço que ando me negando tanto. Essa zine é pra toda galera que devia voltar. É pra Soso pela companhia. É para D., pela inexistência e possibilidade de descoberta


29/07 - sexta

E às 11h eu estava no Museu Afro Brasil entre revistas maravilhosas, falando sobre como fazer uma zine. Foi uma experiência muito louca, fazer uma oficina para experimentar minhas habilidades. Testei a zine, e já pensei outras estratégias para usar melhor o material, o tempo, as habilidades das pessoas. Experimentar erros pode ser um bom jeito de aprender, afinal de contas, a fazer a parada.
O grupo era bem variado. Uma pessoa já tinha produzido zines, na adolescência, quando era do rolê punk. Todas as outras já haviam visto ou lido, em diferente situações: centro acadêmico, movimento sindical, militância feminista, movimento hip hop. Enquanto eu ouvia essas pessoas, pensei o quanto de material incrível já passou pelas minhas mãos e não existe mais, as zines que eu fiz sem nem saber que eram zines.
Apesar do tempo ser curto pra tanta coisa existir, teve uma empolgação generalizada e saíram várias produções incríveis.






Uma das dobraduras que eu ensinei foi o (que agora estou chamando de) caderninho de emergência ou caderny de estilete e cola. É a dobra que atravessa as folhas, mais uma capinha dura. Fiz duas capas: uma Alison Saar e uma Sidney Amaral. Agora já surgiram idéias até de fazer oficina de caderninhos, além da muy urgente zine sobre dobras para usar nas oficinas. Provavelmente esse formato do livrinho seja o mais legal pra essa zine. Voltando pra casa, vim lendo o catálogo da exposição O Banzo, o Amor e a Cozinha de Casa, do próprio Sidney. Enquanto eu balançava no metrô, caminhando os longos percursos em linha reta, ia me molhando daquelas palavras tão bonitas, de ideias tão escuras, emaranhadas de resistência, intimidade, procura por um lugar confortável. Percebo que, embora lento, o movimento de procura pela minha turma tem dado frutos, lentamente tenho ganhado espaço e experiência nisso que quero ser, o que quero viver. Ouço ele falar e penso em quantas narrativas que se complementam, enormes rios que jorram nos mesmos caminhos de solidão, procura. Vou costurando os aprendizados, respirando o tempo que já foi. Uma saudade histórica, uma procura de lugar, o exercício de voz.



Continua.