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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

oroboros

Olhando para trás, Trajetos Celulares é de uma constância admirável: apesar das várias dificuldades, o grupo permaneceu, se adaptou, consegue seguir se reconstituindo, repensando, repropondo. E após quase três anos de idealizado, eu Luara, reconheço o belo percurso proporcionado pelo fomento: a possibilidade de investir não só em uma ideia movida pelo afeto de estabelecer laços com idosas, mas em um projeto de vida, Móri Zines, que vejo hoje como abertura de caminhos entre as publicações independentes. Sem esquecer os cursos que me aproximaram do inacessível e elitista mundo da arte, como me apropriar e, de fato, começar a pensar sobre o capital que circula, planejar chegar a ele. Um edital, mais do que verba, é possibilidade de desobrigar do emprego do tempo em relações  comerciais, haver estrutura e incentivo para pesquisa, criação, diálogo.

Em setembro começamos o terceiro ciclo, Conhecer idosas, reconhecer caminhos, com equipe ampliada e mais especializada, e assim esperamos alcançar o grande objetivo de tornar as histórias ouvidas até aqui públicas, aproximar o público do material produzido e, sobretudo, aproximar esse grupo diverso das questões que afetam a esfera pública do universo do idoso, o acesso  a direitos, o uso da cidade.




Após o primeiro encontro com o NCI Jardim Miriam, surgiram algumas questões e a necessidade de pensar que relação queremos estabelecer com essas idosas, como nos colocar, que questões levar em conta. Essas primeiras perguntas deram origem a essa pesquisa sobre referências de trabalhos que pensam a velhice, além de instigar questionamentos sobre que materiais queremos produzir, como queremos impactar a sociedade. Sobra a vontade de ter pernas para editar Avozine, uma publicação independente apenas com produções de idosas, abordando temas de relevância para o idoso como sujeito social. 


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Webdoc, imersões e expansão de horizontes

Nessas de me inscrever em tudo que aparece, acabei caindo no Hackathon WebDoc Novo Centro do estúdio Crua. Foi uma surpresa sem tamanho ver meu nome na lista de selecionados, e outra surpresa maior ainda me ver ali, analógica e autônoma, no meio de um monte de profissionais do audiovisual, mestres, doutores e a coisa toda. A proposta era "simples": 16 profissionais criarem um webdoc sobre o centro novo em 6 dias.
Parecia ótimo, mesmo sem nem saber o que raios é um webdoc. Foram várias emoções fortíssimas, uma experiência que não só alargou os horizontes de possibilidades para vários projetos, Trajetos incluso, mas afetou meu corpo, minha disposição, os meus olhos para o centro de sp, já tão cansado nas minhas retinas. Processos imersivos são maravilhosos, adoraria ter uma experiência assim por trimestre (tá jogado pro universo!).
Exercício contínuo de registro de processo, sinto muito não ter conseguido fazer isso em audiovisual. A partir das anotações feitas durante os dias de processo, busquei organizar aqui as referências e ideias gerais apreendidas durante o curso.

Referências

WEBDOCS


Plataformas


Bibliografia




Comofas WEBDOC

  • ***NÃO SE APEGUE MUITO ÀS IDEIAS***
  • a história é o mais importante
  • material para internet, utiliza ferramentas disponíveis apenas online
  • questões urgentes/ direitos humanos/ documental/ patrimônio/ memória
  • novas abordagens
    • design/ plataforma como expansão de informação/ fluidez
    • roteiro não linear
  • mudança de paradigma: o consumidor também é produtor
  • take action: como o público pode se envolver
  • para criar fluxo para a web é preciso contato direto e envolver personagens
  • diálogos com a comunidade
  • a partir do tema, abrem-se as possibilidades de abordagem e coleta de material 
  • o tema central desdobra-se em subtextos
  • categorização de informações: permite diferentes narrativas
  • guiar navegação: que o site seja intuitivo e autoexplicativo
  • mesma id. visual para todas as plataformas: coesão entre diferente formatos/ adaptação de linguagens/ como atingir diferentes públicos
  • hierarquia de menus
  • indicar quais caminhos já foram seguidos (menu linear)
  • a interface e as opções de caminho: usabilidade
  • taguear os materiais para saber onde/ como usá-los na interface
  • ambiência sonora
Linhas gerais
  • digital storytelling: como a história será interativa
  • desenvolvimento: ferramentas e plataformas
  • digital design: id. visual, iconografia, usabilidade, elementos gráficos
  • UX: projeto/ ferramentas/ hierarquias de informação
    • wireframes (rascunho de estrutura)
    • mapa de navegação (importância/ caminhos): tags, ícones
    • design de interação
  • tema/ problemática/ equipe/ período/ atuação/ conteúdo
Pensando o Centro
  • processos de remoção dos elementos negros do centro - e os movimentos de resistência
  • Tebas, construtor negro alforriado
  • coletivos de catadores e estruturas femininas
  • Vale do Anhangabaú: fonteira entre centros novo e velho
  • pólo de lixo, concentração de população de rua, equipamentos públicos de saúde e cuidados

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Oficina de zine - 05fev

A segunda oficina oferecida pelo projeto, sendo a primeira com o tema zine. A princípio, seriam 4 dias de oficinas, divididas em dois momentos: caminhada fotográfica e produção de zines. Com o avanço das pesquisas e a percepção das dinâmicas de tempo, optamos por explorar apenas um tema em cada encontro, sendo duas de fotografia e vídeo no celular, oferecidas por Nubia Abe e duas de zine e publicações independentes, oferecidas por Luara de Almeida.


O intuito foi criar um pequeno ateliê de criação, disponibilizando zines para leitura e consulta, material para desenho e colagem, além de máquina de escrever, impressora e xerox, recursos que foram usados com entusiasmo pelos participantes. O espaço, colorido e bem iluminado, foi convidativo, bem como ter um balcão com alimentos e bebidas. O programa previa um momento para comermos juntos, num pique-nique, mas percebemos que os adultos, em sua maioria responsáveis pelas crianças, se reuniram ao redor do café, criando um outro espaço de intimidades, no qual conversamos, conhecemos histórias e compartilhamos os quitutes, que ocasionou maior liberdade para as crianças interagirem entre si e com as participantes.



A maior dificuldade encontrada foi o quesito divulgação. Uma das estratégias que encontramos foi a inscrição por WhatsApp, e criação de grupos para discutir as temáticas a serem abordadas nas oficinas. Apesar de ter sido veiculada nas redes sociais (Facebook e Instagram), além de cartazes espalhados pela vizinhança, a maior parte do público era composta de pessoas que estavam passando pelo parque durante a atividade e foram convidadas a fazer parte do grupo. Diversas pessoas passaram pelo espaço, sendo que onze delas produziram materiais – em sua maioria crianças. Também por serem grupos espontâneos, surgiu a dificuldade de oferecer uma oficina única e linear; ao invés disso, cada grupo foi recebido pelas integrantes do coletivo, estimulados a produzir individualmente.


A série “O guia definitivo da zine”, criada com o intuito de ser material de apoio para as discussões nas oficinas se tornou uma “lembrancinha”, juntamente com outras zines produzidas durante o projeto. A dinâmica dos grupos não propiciou a discussão teórica, mas creio que em nada diminuiu o valor das produções.
                    

O resultado da oficina foram 11 materiais produzidos, entre colagens, ilustrações e zines. Sobretudo, acredito que o intuito do projeto, de cartografar afetos se fez presente durante as discussões, as conversas compartilhadas, as diversas histórias de pessoas que vieram de longe, como Ferraz de Vasconcelos, as famílias que vão ao parque todo final de semana, conhecer pela narração da sobrinha a história das tias, que querem ser escritora e veterinária, as trajetórias de Dona Ana, que gosta de melão japonês, o ciclista que tem duas filhas felinas e fez uma zine de reconciliação para a esposa. Novamente, nos encontramos num lugar de convergência de histórias, compartilhamento de intimidades, cartografia afetiva.   

terça-feira, 27 de setembro de 2016

karol maia // nossa história invisível



A coisa mais legal do VAI tem sido encontrar um monte de gente mais ou menos da minha idade, fazendo coisas maravilhosas com baixos recursos. Conheci a Karol através de seu incrível projeto Nossa História Invisível.  Há algumas semanas, fui ver a estreia da websérie no Matilha Cultural, sala cheia, foi muito lindo. Estamos conversando sobre várias coisas desde o começo do projeto e hoje rolou um skype firmeza com várias referências e dicas pra ajudar a pensar o processo (que me deu vontade de ter mesmo um projeto skype sessions pra conversar sobre temas específicos, trocar uma figurinha, etc). 
Começamos falando sobre o projeto e anotei coisas que ela sugeriu ou achou da nossa proposta:
  • pré-entrevista: antes de ligar a câmera, conversar para descobrir histórias e informações para serem usadas durante a entrevista;
  • saber que as pessoas podem ficar tímidas e não conseguir falar, portanto
  • o gravador pode ser um bom aliado;
  • fábrica de pixe: a narração de uma história na qual diversos relatos se complementam;
  • intercâmbio de fotos: ter fotos armazenadas de outras entrevistadas para serem disparadores dos relatos;
  • fazer a takes da pessoa atuando, ex. olhando para o vazio, andando na rua, interagindo com objetos;
  • quanto mais imagens melhor;
  • pode ser interessante a perspectiva do jovem: o bairro que deixa de ser lar para ser hotel, a vida transcorre no centro;
  • bom termômetro de passagem do tempo, transformações urbanas.
Depois rolaram várias referências legais:

Cultura das bordas, projeto dela sobre moradores personagens do bairro.

Gostei muito, especialmente do episódio do Luis Fernando. Fiquei toda mole e emocionada, transbordou ternura em cores vibrantes, achei tudo muito lindo esteticamente. Achei ele um personagem bem atemporal, um retrato tão real e possível de juventude. Mas a série toda é belíssima, me deu vontade de abraçar todo mundo.

Video poesias, de Goldlink pela rubberband.
São videos maravilhosos, a voz dele é incrível, mas eu não entendo inglês. Sempre dá essa sensação que bato na borda da piscina e volto, nesses mesmos lugares. Preciso aprender essa lingua. Me lembrou os slams, me fez lembrar a necessidade que eu tenho tido de voltar a trabalhar com a palavra, o desejo pela palavra falada. 

Flâner, de Cecile Emeke.
Bastante planos de pessoas atuando. É uma webserie de 4 episódios sobre negritude na França, que faz parte da strolling series, "conectando as histórias dispersas da diaspora negra". É um projeto maravilhoso, múltiplas perspectivas de referências negras não eua-centrada. Me fez pensar sobre como eu não sei nada a respeito dos fluxos de haitianos e várias identidades africanas que existem em SP.

Continue curioso, também pra reparar nos planos de ação. Fofo. 

Staff riding, o video favorito dela.
É muito maravilhoso, sobre surfistas de trem na África do Sul. Mais um retrato muito real de juventude, é muito potente ouvir discursos da juventude sobre a morte. Esteticamente, o curta é incrível, as construções de urbanidades com mapas, vistas dos trens e fluxos de pessoas. Gostei muito, gostaria de filmar pessoas andando nas ruas do bairro.

Brandon Stanton, do projeto Humans of New York.
Acho muito legal quando a proposta cria alguma intimidade entre espectador e personagem, principalmente quando é uma pessoa que eu dificilmente encontraria no rolê. Acho que é uma atmosfera legal pra entender melhor outros mundos.
Bônus: ele ensinando a chegar junto nos humanos de nova iorque. Achei muito legal encontrar isso nessa altura do campeonatinho.

Um dois tres e ja, não lembro o porquê desse
É uma série da Galeria Experiência, laboratório fotográfico na Vila Madalena, sobre memórias de infâncias. Esse é do Jun Matsui tatuador muito sério - que eu nem conhecia - de SP. Achei bonito como um video curto consegue ir bem fundo tão rápido. Fiquei pensando sobre a possibilidade de entrevistar pessoas nas ruas para fazer videos drops.

Hélio Leites.
A Márcia Cardeal, que é muita alumi
ação na minha vida, já tinha me falado dele, e eu nunca tinha visto nada sobre o artista das miudezas, das coisas cotidianas, inutensílios. "A  tristeza mostra pra gente coisas que a alegria não deixa ver".

Charlotte SP, filme nacional gravado com celular, acabou de estreiar. Queria que alguém me convidasse pra ver e pagasse meu ingresso, que eu nunca vou ao cinema, não queria gastar meus pobres golpinhos pra ver vida de modelo e seus migos ricos.


Tá bom ou quer mais? Em quarenta minutos de conversa. Tá, meu bein?

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

insvestigações situacionistas // pesquisas teóricas

Sexta-feira, finalmente me rendi ao café e comecei a trabalhar 14h30. Nada mal pra uma semana dessas. Amora continua com seu xixi apenas diário, finalmente fez cocô e essas coisas importam para o processo de criação. Ao que tudo indica, a partir de segunda-feira começamos a receber os equipamentos de impressão e eu estou TÃO ANIMADA. Acredito que tendo os equipamentos de criação ao acesso da mão, o processo criativo vai fluir numa velocidade que me agrade mais. Estou cansada e dispersa, mas apesar disso tenho certeza que estudar é o que mais vai me causar prazer agora; ontem os pomodoros foram muito eficientes, consegui trabalhar sem falcatruar e realmente fiquei bem concentrada nessa função. 

DANDO OS COMEÇO, tenho pensado muito na necessidade de desenvolver alguma técnica para me sentir mais confiante quando saio de casa para fotografar, para ter um olhar ativo. Como ontem eu consegui bastante informação sobre o caminhar, acredito que seja um bom ponto de partida para repensar a minha relação com a urbe. 
De alguma maneira, me sinto flertando com a geografia e com novas visões sobre o espaço e como habitar. Penso que me sinto muito presa às matrizes de conhecimento com as quais me sinto confortável ou "iniciada". Percebo também a pequeneza do tanque que me enfiei, e pode ser que estudar e me sentir íntima de novos temas, vernáculos, idéias ajude a dissolver o marasmo e o tédio. 

Walkscapes: o caminhar como prática estética, de Francesco Careri. Tenho que pegar essa criatura. Consegui emprestado!!! Santo saite faces.

photowalk: esse site reúne informações sobre artistas que fazem caminhadas fotográficas, registram coisas away, caminhadas, enfim.

ainda estou achando apps sobre deriva e espaço urbano.
situationist (não existe mais)
derive urban exploration app (já postei antes e não gostei)
lugares invisíveis (que não entendi como funciona ainda, mas parece incrível)


dérive parece promissor, bonito e fruto de um trabalho artístico, o que evidentemente me emociona mais. você escolhe uma trilha sonora e vai. vou derivar com ele., 


investigações sobre debord, situacionismo, deriva e ideias para a proposição de vistas

a-do-ro manifestos, trabalhar com literatura planfletária foi uma ideia real durante vários anos de juventú. 
A alienação e a opressão na sociedade não podem ser mantidas em nenhuma de suas variantes, mas sim, apenas rejeitadas em bloco com essa mesma sociedade. Todo progresso verdadeiro fica evidentemente suspenso até que a multiforme crise atual encontre uma solução revolucionária.

Na sociedade dominante de hoje, que produz em massa desconsolados pseudo-jogos de não-participação, uma atividade artística verdadeira é forçosamente classificada no campo da criminalidade. É semiclandestina. Aparece sob a forma de escândalo. (já foi, querido, o espetáculo-kapital engoliu qualquer autenticidade)
Suas experiências se propõem, no mínimo, a realizar uma revolução do comportamento e um urbanismo unitário dinâmico, susceptível de se estender para todo o planeta; e de se propagar, em seguida, para todos os planetas habitáveis. (quem não ama um boy megalomaníaco e colonizador do mundú?)

Contra a arte unilateral, a cultura situacionista será uma arte do diálogo, da interação. Os artistas - como toda a cultura visível - chegaram a estar completamente separados da sociedade, assim como estão separados entre si pela concorrência.  
Eu não colaria com esse bonde.

Breve histórico da internacional situacionista 
“As grandes cidades são favoráveis à distração que chamamos de deriva. A deriva é uma técnica do andar sem rumo. Ela se mistura à influência do cenário. Todas as casas são belas. A arquitetura deve se tornar apaixonante. Nós não saberíamos considerar tipos de construção menores. O novo urbanismo é inseparável das transformações econômicas e sociais felizmente inevitáveis. É possível se pensar que as reinvidicações revolucionárias de uma época correspondem à idéia que essa época tem da felicidade. A valorização dos lazeres não é uma brincadeira. Nós insistimos que é preciso se inventar novos jogos”. (guy debord)
Quando os habitantes passassem de simples espectadores a construtores, transformadores e “vivenciadores” de seus próprios espaços, isso sim impediria qualquer tipo de espetacularização urbana.
“O que você chama momentos, nós chamamos situações, mas estamos levando isso mais longe que você. Você aceita como momento tudo que ocorreu na história: amor, poesia, pensamento. Nós queremos criar momentos novos” (lefebvre)
A psicogeografia foi definida como um “estudo dos efeitos exatos do meio geográfico, conscientemente planejado ou não, que agem diretamente sobre o comportamento afetivo dos indivíduos”. E a deriva era vista como um “modo de comportamento experimental ligado às condições da sociedade urbana: técnica da passagem rápida por ambiências variadas. Diz-se também, mais particularmente, para designar a duração de um exercício contínuo dessa experiência”. Ficava claro que a deriva era o exercício prático da psicogeografia e, além de ser também uma nova forma de apreensão do espaço urbano, ela seguia uma tradição artística desse tipo de experiência (...) A deriva seria uma apropriação do espaço urbano pelo pedestre através da ação do andar sem rumo. A psicogeografia estudava o ambiente urbano, sobretudo os espaços públicos, através das derivas, e tentava mapear os diversos comportamentos afetivos diante dessa ação, basicamente do caminhar na cidade.

Era situacionista “que se refere à teoria ou à atividade prática de uma construção de situações. Indivíduo que se dedica a construir situações” (26). Uma situação construída seria então um “momento da vida, concreta e deliberadamente construído pela organização coletiva de uma ambiência unitária e de um jogo de acontecimentos”.
“Nossa idéia central é a construção de situações, isto é, a construção concreta de ambiências momentâneas da vida, e sua transformação em uma qualidade passional superior. Devemos elaborar uma intervenção ordenada sobre os fatores complexos dos dois grandes componentes que interagem continuamente: o cenário material da vida; e os comportamentos que ele provoca e que o alteram”

Este seria a fronteira onde nasceria a alienação mas onde também poderia crescer a participação; assim como o lazer seria o tempo livre para o prazer e não para a alienação, o lazer poderia passar a ser ativo e criativo através da participação popular.
O título do mapa, The Naked City, também escrito em letras vermelhas, foi tirado de um film noir americano homônimo (36). O seu subtítulo, illustration de l’hypothèse des plaques tournantes, fazia alusão às placas giratórias (plaques tournantes) e manivelas ferroviárias responsáveis pela mudança de direção dos trens, que sem dúvida representavam as diferentes opções de caminhos a serem tomados nas derivas.
Os mapas situacionistas, psicogeográficos, realizados em função de derivas reais, eram tão imaginários e subjetivos quanto a Carte du pays de Tendre; eles simplesmente ilustravam uma nova maneira de apreender o espaço urbano através da experiência afetiva desses espaços. Esses mapas, experimentais e rudimentares, desprezavam os parâmetros técnicos habituais pois estes não levam em consideração aspectos sentimentais, psicológicos ou intuitivos, e que muitas vezes caracterizam muito mais um determinado espaço do que os simples aspectos meramente físicos, formais, topográficos ou geográficos.
 mapa de tendre

  • Como um filósofo, seja curioso com as coisas aparentemente insignificantes do cotidiano, elas são o material da exploração psicogeográfica;
  • Mantenha um diário e reúna nele as impressões de suas derivas da forma que achar mais conveniente. Estudamos a cidade para transformar a forma com que a vemos;
  • A noite também pode ser explorada, como falei em outro texto sobre sonhos lúcidos, é interessante criar um caderno de sonhos e insightspara associá-lo as experiências diárias. Poucas práticas proporcionam material criativo mais rico que essa;
  • Não seja passivo, interfira no meio! Faça desenhos, grafitagens, performances, torne tudo público (anonimamente ou não). A cidade não é só para estudar, mas sim para modificar. Isso é um diário também, são pistas para outros jogadores urbanos, uma reação em cadeia da consciência coletiva com desdobramentos imprevisíveis;
  • Meditar, ou seja, sentar e não fazer nada, também é uma forma de deriva (talvez a mais interessante delas). Se conhecemos a cidade andando livremente, conhecemos a mente descansando em seu estado natural, observando sem maiores expectativas.
making maps: diy cartography
superando o turismo, hakin bey
the situationist city (livro)
Urban Maps: Instruments of Narrative and Interpretation in the City
internacional situacionista online
cartografia escolar e boas referências para trabalhar com jovens
Uma cartografia das práticas arquitetônicas subversivas: relato de atividade desenvolvida para matéria de arquitetura com crianças em MG_Espaço; representação; experimentação; construção
the leaning tower of venice: acho que pode ser um modelo bonito de zine, review


sobre o trânsito de pessoas no decorrer de um breve período de tempo (me lembra a vontade de filmar coisas como: maneiras de descer um morrinho, possibilidades de desvio de poças d'água e goteiras, etc)

mapas y teknologia

openstreetmaps: mapa livre aberto e editável
mapas livres: projeto ptbr que trampa com openstreetmaps
mapzen: plataforma de mapeamento
latin american openstreet conference: 24~27 de novembro
técnicas de mapeamento

oficina de mapas livres
ótimo frame


Hoje foi um dia produtivo, trabalhei 7 pomodoros nisso, 4 horinhas de pesquisa. Cansei, entediei, vou fazer algumas outras coisas. Tô baixando um filme que ~~pode ter a ver ou não~~ e afinal de contas é sexta a noite e essa não foi uma semana fácil.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

o processo é lento // pesquisas teóricas

Tem isso de sempre achar que vai ter um tempo bom pra produzir, pra criar, que o mundo vai dar um tempo pra não atravessar o processo criativo. Vinte-quase-trinta anos na cara e ainda não aprendi que o negócio é louco o tempo todo, e tem que conseguir desenhar no meio do caos, ter ideias lindas no meio da chuva de forninhos. 
Há semanas eu percebi a necessidade de alguma formação teórica, e embora eu até soubesse onde buscá-la, fui só deixando a coisa passar. Essa semana já está encabeçando o fim, e com essa treta renal da Amora enquanto as coisas não estabilizarem eu não vou querer sair. Mais um período de clausura, vamos nessa. Decidi aproveitar para ler, e antes de tudo é preciso começar.
Fui procurar as referências que o Flávio falou láááá atrás e nunca efetivamente li. Apesar de tudo, esse tempo de casa do alto foi de muita superficialidade, sem mergulhar em nada. Foi bom ver tanta coisa, mas agora é preciso submergir.

Manual de mapeo colectivo, do Iconoclastas
Coletivo Parabelo
Coleção teatro Rumos Itaú cultural 2010-2012 (pesquisas e testemunho poético de Eleonora Fabião)
Entrevista com Sueli Rolnik para Redobra na plataforma corpocidade da UFBA
O corpo vibrátil de Lygia Clark por Suely Rolnik
Hora da micropolítica, entrevista com Suely Rolnik para o Instituto Goethe

Essa foi a minha primeira pesquisa. Essa semana está especialmente difícil me concentrar, então quero focar em construir a tiuria para uma saída fotográfica. De alguma maneira, ter o que fazer que ajuda a fazer o que tenho pra fazer (!), então lá vamos nós.

O projeto pra essa noite é:

  • estruturar como fazer a zine "vistas". Com uma pinlux, os derivantes irão fotografar as vistas do bairro (de um ponto de partida em direção a um ponto de encontro ainda desconhecido). Quer usar as variáveis: mato, eletricidade e água. 
  • escolher pelo menos uma estrutura de mapa de construção coletiva para experimentar semana que vem.
  • realizar as duas primeiras tarefas em consonância com as leituras destacadas.
Manual de mapeo colectivo







Desde o começo do projeto estava apaixonada pelos mapas, mas estava faltando força foco e fé. Já tinha entrado em contato com materiais dos Iconoclastas, mas não tinha experimentado pensar o projeto através de técnicas de mapeamento. Tive boas ideias e acredito que já tem bastantes propostas a serem testadas e, talvez, realizadas na próxima semana para dar início as materializações que eu tanto desejo.



Vistas da Vila Buenos Aires
Essa idéia foi inspirada no Vistas do Largo, da Oficina da Luz, um projeto que me marcou muito e desde 2010 povoa de macaquinhos o meu sótão. Hoje olhando as fotos de novo, penso que já era a própria cartografia afetiva, ou pelo menos um recorte dela, essas vistas. Queria muito desenvolver um projeto bonito, que fosse esteticamente atraente e elegante, com as fotos da quebrada. Os postais de vistas de SP na primeira metade do século passado indicavam pompa e elegância, apresentando uma São Paulo muito distinta de se ver. Pleno século da selfie, e a foto impressa ainda é uma raridade, uma caridade (no sentido de ser caro), e penso que uma zine elegante com postais pode ser muito prazeroso de ser olhado, e criar um outro ânimo para admirar a Vila. Nem sei como procurar referências, tão ruins são os resultados pras minhas palavras-chave.

Experiências de um clique só
Tenho pensado sobre a necessidade de segurar a ondinha na hora de registrar as coisas. O hd se desdobrando em megagigas de imagem frame retrato nude selfie arte ideia insight paisagem que não serve pra nada (a menos que um dia sirva, mas quase nada serve, nem de afeto, porque a inundância de informação pasteuriza tudo).
E mesmo sendo um post estúpido, é uma ideia muito boa: postais de uma pose só, o que existe é a verdade, e não uma possibilidade; a sua própria visão final. #nofilter
O objetivo é sensibilizar a observação e as noções de projeção, tempo de exposição, a ritualística do momento, a importância de cada gesto, a aceitação do seu próprio produto artístico e, sobretudo, a apreciação do erro e do ruído. É a possibilidade de trabalhar narrativas fantásticas a partir das distorções de baixa resolução da realidade. 

Reacendendo questões sobre o andar-caminhar
à deriva | sesc sp
percursos em deriva, de cristina ataíde, experimentações no mato e a cidade (nunca esquecer do projeto da loucura da montanha)
esse post do Coletivo de Teatro Dodecafônico sobre o livro Walkscapes, do Francesco Careri abriu um mar de possibilidades até então intocadas ________>
walking as knowing as making definitivamente eu ainda não entendi esse site por isso ele parece tão maravilhoso, mas aparentemente essa galera se encontrou numa universidade para ler, andar, discutir e registrar percurso. parece muitíssimo absurdo.
O pedestre e o passante, sobre a dimensão estética da vida urbana em revista errática !!!
elogio aos errantes: breve história das errâncias urbanas, achei muito interessante o fato de dar o nome errante para essas figuras nômades que rasgam a paisagem da urbe. Parece ser um texto bem denso e acadêmico, mas no fim a gente nunca sabe.

Muitos desejos pra pouco tempo. Vou passar o resto da semana em casa, sair só domingo e segunda. Espero conseguir evoluir nas leituras e nas concretizações.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

pesquisas sobre zines e fermentação de ideias // o que que eu vou fazer com essa tal liberdade?

Cá estou produzindo no último minuto porque né (se um dia eu lembrar, fotografarei a tirinha do Calvin de vivendo e não aprendendo para ilustrar não só essa postagem como a minha vida). A oficina de zines tem existido na minha cabeça desde que soube que o projeto existia, mas não passou de uma vaga lembrança - até agora. Fui convidada pra dar uma oficina de zines no Museu Afro Brasil porque a Nega Preta chegou lá e foi apenas sucesso. Essas coisas que dão um gás, um ânimo, uma vontadezinha de existir.
Mas bem, vou dar uma oficina DE QUE? D:
Desde o começo, eu queria ter uma zine minha falando sobre como fazer zines (se der um ruim e eu ficar nervosa e falar tudo nadav pelo menos tem uma chance de eu continuar a oficina porque as informações tão lá, já).

Acabei de descobrir que to fazendo o mesmo formato AND tema que essa zine maravilhosa aqui. Sincronicidade da sequela.

Bom, enquanto segue o baile ainda estou tentando fazer a tal zine. Quero fazer um apanhado de ideias sobre fazer zines, um lado todo feito a mão e um lado só de prints e coisas digitais, afinal de contas pensar apenas em zines feitas só a mão é subestimar a galera, né. 


cafeína zines: lista de zineiras 
capitolina: zine 1 e zine2 
zines livretos: modelo de oficina e 150 minutos
zine a rodo: publicações em serigrafia (me inscrevi mas acho que preciso ter um portfolio decente)
tiny books (pinterest)
gabriela bruzadin: zines (modelo de portfolio)
rizoma: minizine/ porque estamos nas ruas 


oficina de zine // museu afro brasil



Já é agosto e finalmente consegui começar a me preparar para as oficinas do projeto. Tem muita coisa ainda para ser feita, mas sinto que consegui dar um passo importante para a minha formação que foi a oficina de zines no Museu Afro Brasil. A Amanda, que trabalha no educativo, conheceu a Nega Preta, e nos conhecemos na exposição da Rosana Paulino, quando ela sugeriu que eu desse uma oficina. O tempo, esse safado, calhou dela me convidar para a oficina na semana seguinte a Distúrbio Feminino, quando voltei a produzir. Tive 3 dias para me preparar, e parte da mágica estava aí: eu precisei desdobrar o tempo (e o espaço, pensando que eu estava de mudança montada) para conseguir estar lá. Foi tão mágico que eu consegui, sem fritar de ansiedade. Ainda consegui um floral na quinta, foi uma semana bem amarrada. Mas eu estava cansada demais, então teve pouca organização e poucos registros. 
Nesse post fazer a retomada do processo e algumas das minhas percepções e perspectivas.

27/07 - quarta






A proposta de data era na sexta-feira, 29, às 12h, e acho que a emoção do último minuto falou mais alto e eu topei. Foi ótimo ter um objetivo, poder focar em algo. Como eu já estava na onda da semana anterior, cheia de zines novos e Negas Pretas dobradas, senti que tinha o que eu precisava e prontas nunca estamos mesmo, então só vai. Aproveitem a urgência de tudo pra retomar a minha agenda, consegui fazer tudo num tempo bacana, sem sofrer e nem deixar nada pelo caminho. Foi exaustivo, mas totalmente valeu a pena, sentimento de MANDEYBEIN acima de tudo. 
Eu não tinha certeza de como me preparar pra oficina em tão pouco tempo, então foquei em produzir o material que eu queria, que fosse um guia para que eu lembrasse de falar sobre todos os assuntos que acho importantes para se falar de zine. Apesar de não ter conseguido usar a zine como eu queria, foi bom tê-la pronta, acho legal que as pessoas possam levar algum material para servir de instiga pra casa. Também comecei a pensar recursos para dar condição de usar esse material. 



Na quarta feira eu fiz a frente de um a4. Comecei pensando um título, e aproveitei que gosto muito do formato de excesso de nomes, resolvi usar esse recurso - o que acabou ajudando muito no desenrolar da produção. Além disso, consegui deixar só os títulos que de alguma maneira fazem gancho sobre algo que eu gostaria de falar na zine. Uma das falhas dessa oficina foi não delimitar um tempo para que explorássemos conjuntamente a zine. 
Como queria achar uma dobradura diferente das que eu conheço, fui experimentando. Por conta da falta de tempo, eu já queria produzir tudo no formato escolhido pra evitar de precisar ir até a gráfica scanear e montar no photoshop. 



Decidi usar o maior número dos recursos que eu acho importantes e que coubessem no a4, para que ela funcionasse sozinha como um guia-instiga sobre produção de zines. Usei o acervo que tinha mais a mão em casa: revistas antigas, uns livros de medicina e biologia dos anos 80, piauí, manuais de instruções de eletrodomésticos antigos, um dicionário. Eu não tinha planejado como a zine seria, mas eu queria um lado só de recorte e cole (o outro, inicialmente, eu queria que fosse de prints, mas acabou que a pesquisa estava chata e redundante, faltou a espontaneidade que funciona bem tanto para os recortes quanto os prints, embora a ideia de uma zine de prints/ wpp tenha ficado mesmo na minha cabeça). 



Eu queria trabalhar com conceitos do dicionário por vários motivos: "zine" e "fanzine" não são verbetes, e a falta de definição é muito importante para que o estilo seja livre e as várias possibilidades estéticas, temáticas e de divulgação sejam tão amplamente apropriadas por muitos grupos urbanos. Além disso, é legal perceber as cagadas que estão escritas no dicionário e, assim, se tornam verdades, como "criar: tirar do nada". Partir do princípio que a criação vem do nada e quem cria algo viveu o mundo, aprendeu conceitos, experimentou arte, ciência, conceitos, enfim. Em algum momento do processo, decidi fazer uma criação a partir da cópia e da ressignificação, o que muito me agrada, afinal existe abundância e saturação de imagens, produções, propagandas no mundo. 
Estilisticamente, prefiro a sobrecarga de informação ao vazio, embora saiba que artista deixa bordas brancas e valoriza o objeto central entre outras coisas, eu curto a baratinação, a confusão, não saber pra onde olhar, a pancadinha no cérebro. Por isso, foquei a procura em: texturas e imagens de fundo, textos ou frases que trabalhassem direta ou indiretamente os assuntos dos verbetes recortados. Para as imagens, procurei os clichês, nesse momento eu ainda estava pensando em trabalhar com prints e queria explorar o conceito de meme. Um dos recursos que acredito ser muito interessante para zines é explorar essas imagens que repetidamente são usadas, para que seja um material mais universal, que não use linguagens específicas de certos grupos ou datadas.

Na oficina, eu gostaria de ter explorado mais o formato "manual de instruções", por dois motivos: 1. esse é um formato que é íntimo da maioria das pessoas, seja o manual que ensina a montar ou usar algum aparelho, seja o livro de receitas que ensina passo a passo a feitura de uma comida e 2. porque foi muito legal recortar os manuais que achei em casa, que geralmente viram lixo (assim que o equipamento funciona). É um uso inteligente de recurso barato. 

verso da zine

A mídia líquida era o gancho para falar sobre massificação midíática: os formatos engessados do que e como noticiar, a transmissão da informação que se pretende definitiva, verdade, absoluta, etc etc etc e como a zine, por não ter editor, não visar lucro, não ter um público com expectativas permite mais autonomia dos assuntos, não necessariamente chegar a um objetivo, não ter idéias definitivas e redondas. Traduzindo em miúdos, dá pra fazer o que quiser, como quiser, e difundir sem se importar com o efeito final. Mas acabou que as propagandas foram uma fonte de risos, achei legal corromper esse formato, sem a pretensão de soar verídico.



28/07 - quinta

Nanquim, sumi-e e sharpie sobre canson,
21 x 29,7cm
.
A frente da zine estava linda e empaquei com o verso. A idéia que parecia tão genial de fazer uma ziniprints se mostrou muito diferente do que eu tinha imaginado, e não sabia qual era a alternativa, até a maravilhosa Soso me dizer: faz um cartaz no versooooo, o que obviamente é um conselho de zineira que manja das parada. O cartaz no verso tem uma enorme utilidade prática: não é preciso coordenar os cortes da frente e do verso, e as impressões invertidas não impossibilitam o corte da zine. Definido que o verso seria um cartaz, foquei em produzir um desenho, que foi um autoretrato. A partir dele desenvolvi o verso, mais autoral que a frente, o que também é uma característica do meu trabalho. Usei papéis da minha coleção, desenhos que foram produzidos em outras situações, recortes botânicos, todo em preto, branco e vermelho, meu atual estudo de cores, com bastante coisa escrita a mão, explorando caligrafia, outra gama de recursos para zine que é a edição e curadoria dos seus próprios materiais, que permite um exercício de intimidade com "o artista". O Leonilson certamente é um referência nesse quesito, e acho que o Sidney Amaral está vindo a ser também.

Fiz dois carimbos de stencil, "ERRE ERREMAIS ERREI" e "CÓPIA É AFETO". Foi o cantinho total experimental da zine. Gostei do resultado, quero explorar como possibilidade.






Além disso, explorei nessa zine também a dedicatória. A Nega Preta tem 3 dedicatórias, mas porque foi mesmo feita para aquelas pessoas, era parte do processo de entendimento e aceitação da morte do meu avô. Essa é uma zine de trabalho, ao mesmo tempo que é uma zine que reúne aprendizados, discussão teórica, práticas de todo tipo. De novo eu citei a Silvana, que é a minha artista favorita e volta e meia me presenteia com uma perolinha de sabedoria, presumindo que as nossas estratégias de sobrevivência e acertos dentre os erros são também os nossos diálogos sobre arte. Não fosse Sirvana e suas sementes-pérolas, nunca haveria VAI. Lembrando o Leonilson que tem sido uma das chaves da minha pesquisa/delírio, o desvio pelo qual passo infinitas vezes, "às vezes eu acho que gosto das pessoas só pelo tanto que eu posso dedicar trabalhos a elas", e nesse exercício de cultivo, de preservar relações e gostar das pessoas, achei que era importante dedicar essa zine, que também é síntese e resultado de um processo, algo enorme transformado no simples. Essa zine é pros carneiro que estão longe. Essa zine é pro Bóris, que tem sido parceria e estímulo nesse processo de reconhecimento e criação da persona artista. Essa zine é pra Lauris, que veio me ver e eu não pude, nessa semana mesmo, e tem sido escuta e pé no chão, e tanta compreensão nesse abraço que ando me negando tanto. Essa zine é pra toda galera que devia voltar. É pra Soso pela companhia. É para D., pela inexistência e possibilidade de descoberta


29/07 - sexta

E às 11h eu estava no Museu Afro Brasil entre revistas maravilhosas, falando sobre como fazer uma zine. Foi uma experiência muito louca, fazer uma oficina para experimentar minhas habilidades. Testei a zine, e já pensei outras estratégias para usar melhor o material, o tempo, as habilidades das pessoas. Experimentar erros pode ser um bom jeito de aprender, afinal de contas, a fazer a parada.
O grupo era bem variado. Uma pessoa já tinha produzido zines, na adolescência, quando era do rolê punk. Todas as outras já haviam visto ou lido, em diferente situações: centro acadêmico, movimento sindical, militância feminista, movimento hip hop. Enquanto eu ouvia essas pessoas, pensei o quanto de material incrível já passou pelas minhas mãos e não existe mais, as zines que eu fiz sem nem saber que eram zines.
Apesar do tempo ser curto pra tanta coisa existir, teve uma empolgação generalizada e saíram várias produções incríveis.






Uma das dobraduras que eu ensinei foi o (que agora estou chamando de) caderninho de emergência ou caderny de estilete e cola. É a dobra que atravessa as folhas, mais uma capinha dura. Fiz duas capas: uma Alison Saar e uma Sidney Amaral. Agora já surgiram idéias até de fazer oficina de caderninhos, além da muy urgente zine sobre dobras para usar nas oficinas. Provavelmente esse formato do livrinho seja o mais legal pra essa zine. Voltando pra casa, vim lendo o catálogo da exposição O Banzo, o Amor e a Cozinha de Casa, do próprio Sidney. Enquanto eu balançava no metrô, caminhando os longos percursos em linha reta, ia me molhando daquelas palavras tão bonitas, de ideias tão escuras, emaranhadas de resistência, intimidade, procura por um lugar confortável. Percebo que, embora lento, o movimento de procura pela minha turma tem dado frutos, lentamente tenho ganhado espaço e experiência nisso que quero ser, o que quero viver. Ouço ele falar e penso em quantas narrativas que se complementam, enormes rios que jorram nos mesmos caminhos de solidão, procura. Vou costurando os aprendizados, respirando o tempo que já foi. Uma saudade histórica, uma procura de lugar, o exercício de voz.



Continua.