Oficina realizada de outubro a dezembro de 2017 com Fábio Mariano, na Oficina Cultural Oswald de Andrade.
Referências:
Livro arte
Laura Teixeira. Livros de imagens, oficinas de ilustração.
Poemóbiles, de Augusto de Campos de Julio Plaza. Livro objeto.
Boris Fatigati. Produção de livros acessíveis.
Adele Outteridge. Livros objetos criados com material reciclados.
Produção de livros
Aldo Manuzio: editor tipógrafo, livreiro.
Robert Bringhurst. Elementos do estilo tipográfico.
Milton Ribeiro. Planejamento visual gráfico.
Literatura
Celina CAstro. Santos de vento.
Papéis
Distribuidora VSP
Papel manilha ou capagê
Programas
Publisher do programa office
domingo, 19 de novembro de 2017
Registro de longo trajeto
Trajetos celulares, antes de um projeto, é um desafio artístico. Cerca de oito meses dedicados à aprender algo que é subjetivo, que não tem uma forma específica, um processo individual e também comunitário, construído como uma colcha de retalhos. Ás vezes, só depois do começo (ou do fim) de uma experiência posso perceber como tudo está interligado e compondo o sonho de me tornar uma artista melhor e mais consciente da minha própria criação. Como objeto final dessa experiência, temos uma websérie e quatro livros artesanais, e é sobre a produção impressa que tenho dedicado minhas pesquisas.
Em 2016, primeiro ano do projeto, as ideias ainda estavam cruas e sem forma, e ao longo dos quase 10 meses que pudemos nos dedicar a dar corpo físico e virtual à uma ideia escrita. Parte desse processo foi a produção de zines, publicações independentes pequenas e de baixo custo, com formatos que desafiam o leitor e proporcionam novas experiências de acessar literatura e imagem. Essa produção intensa deu margem à criação do selo Móri Zines, que também foi um passo em direção a profissionalização e difusão da produção do Chakumbolo (hoje formado por Caio Jade, Nubia Abe e eu, Luara Erremays). Sobretudo ao participar de feiras de publicação, pude perceber o impacto das nossas criações nas pessoas que interagem conosco. Mais do que isso, pude perceber que o contato com literatura e produções marginais, com temáticas que tocam os afetos, gera influência criativa em pessoas que não se sentem artistas e produtores de cultura, por não acessarem o mainstream.
Estimulada pela oficinas oferecidas no Clube Escola Tiquatira, surgiu o Rexistências Fantásticas, oficina realizada em 7 encontros no Centro de Cidadania LGBT Arouche, em comemoração ao Mês da Visibilidade Lésbica. Nesse ciclo de oficinas, as participantes foram estimuladas a criar uma zine a partir da sua experiência de vida. Foi da maior importância estimular a escuta e a contação de histórias pessoais e íntimas como exercício criativo, e o processo de tornar a verbalização em produto impresso. Vários foram os recursos utilizados, e o trabalho ficou belíssimo. Foi uma dos desenvolvimentos profissionais proporcionados pelo programa VAI.
O curso Produção Gráfica, realizado no Senai Theobaldo de Nigri também financiado pelo VAI, foi fundamental para criar uma noção maior das possibilidades que a indústria gráfica oferece, além de conhecer ferramentas e programas importantes para a criação desses materiais de forma profissional. O contato com as máquinas - das mais antigas e manuais às mais modernas e tecnológicas, o manuseio de papéis, tintas e técnicas de enobrecimento ampliaram a visão restrita que ainda me parecia o todo: além da sulfite e do canson existe larga pesquisa em materiais visando resultados diferentes, incríveis. Ficou evidente também a necessidade de buscar conhecimento institucional a fim de poder criar além das minhas limitações de acessibilidade à tecnologias.
No projeto aprovado em 2017, o lugar confortável que foi construído no contexto das zines precisa ser revisitado com o objetivo de obter ferramentas e habilidades para desenvolver e imprimir livros, formato mais complexo e mais elaborado de publicação. Diferente da zine, que me instigou desejos de experienciar a produção pela minha própria investigação, os livros me fizeram procurar pelo aprendizado e a expansão de habilidades gráficas.
Em primeiro lugar, acredito que frequentar a Folhateria do CCSP, ateliê aberto de xilogravura e serigrafia, me possibilitou conhecer outras formas de impressões alternativas, que se apresentam como formas mais ricas de criar imagens em sequência. Ao longo de 2017 experimentei transformar ilustrações em matrizes de gravura, além de pesquisa sobre tintas, sobreposições e produção em série.
Foi nesse espaço que em outubro comecei o curso Bestiário e códice: o monstro na narrativa gráfica, com Helena Ariano. A partir de técnicas de linoleogravura, o grupo foi estimulado a criar um monstro para compor um bestiário, catálogo de monstros que eram usualmente impressos em gravura na Idade Média europeia. A aproximação com a xilo e a necessidade de me dedicar a uma pesquisa específica, monstros, desenvolveu habilidades como a procura por referências, experimentação de materiais sobre um mesmo tema e desenvolvimento de caderno de estudos. O curso acontecerá até dezembro.
Outro curso, Produção de Livro Independente, iniciado do ateliê de gravura e tipografia da casa de cultura Oswald Andrade com Fábio Mariano tem sido fundamental para começar a dar corpo aos projetos de livros artesanais. O objetivo é criar narrativa, forma e reprodução com recursos analógicos. Desde a criação de margens até escolha de fontes, ilustrações e criação de texto como experiência visual. O curso acontecerá até dezembro.
Sobre as maiores dificuldades de produção, certamente uma das principais é a dificuldade em agrupar de forma eficiente as referências pesquisadas como material de registro de processo. Fica ainda mais forte a necessidade de investigar plataformas virtuais e como usá-las de maneira acessível.
Em 2016, primeiro ano do projeto, as ideias ainda estavam cruas e sem forma, e ao longo dos quase 10 meses que pudemos nos dedicar a dar corpo físico e virtual à uma ideia escrita. Parte desse processo foi a produção de zines, publicações independentes pequenas e de baixo custo, com formatos que desafiam o leitor e proporcionam novas experiências de acessar literatura e imagem. Essa produção intensa deu margem à criação do selo Móri Zines, que também foi um passo em direção a profissionalização e difusão da produção do Chakumbolo (hoje formado por Caio Jade, Nubia Abe e eu, Luara Erremays). Sobretudo ao participar de feiras de publicação, pude perceber o impacto das nossas criações nas pessoas que interagem conosco. Mais do que isso, pude perceber que o contato com literatura e produções marginais, com temáticas que tocam os afetos, gera influência criativa em pessoas que não se sentem artistas e produtores de cultura, por não acessarem o mainstream.
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| Feira Dente, Brasília, março de 2017. |
O curso Produção Gráfica, realizado no Senai Theobaldo de Nigri também financiado pelo VAI, foi fundamental para criar uma noção maior das possibilidades que a indústria gráfica oferece, além de conhecer ferramentas e programas importantes para a criação desses materiais de forma profissional. O contato com as máquinas - das mais antigas e manuais às mais modernas e tecnológicas, o manuseio de papéis, tintas e técnicas de enobrecimento ampliaram a visão restrita que ainda me parecia o todo: além da sulfite e do canson existe larga pesquisa em materiais visando resultados diferentes, incríveis. Ficou evidente também a necessidade de buscar conhecimento institucional a fim de poder criar além das minhas limitações de acessibilidade à tecnologias.
No projeto aprovado em 2017, o lugar confortável que foi construído no contexto das zines precisa ser revisitado com o objetivo de obter ferramentas e habilidades para desenvolver e imprimir livros, formato mais complexo e mais elaborado de publicação. Diferente da zine, que me instigou desejos de experienciar a produção pela minha própria investigação, os livros me fizeram procurar pelo aprendizado e a expansão de habilidades gráficas.
Em primeiro lugar, acredito que frequentar a Folhateria do CCSP, ateliê aberto de xilogravura e serigrafia, me possibilitou conhecer outras formas de impressões alternativas, que se apresentam como formas mais ricas de criar imagens em sequência. Ao longo de 2017 experimentei transformar ilustrações em matrizes de gravura, além de pesquisa sobre tintas, sobreposições e produção em série.
Foi nesse espaço que em outubro comecei o curso Bestiário e códice: o monstro na narrativa gráfica, com Helena Ariano. A partir de técnicas de linoleogravura, o grupo foi estimulado a criar um monstro para compor um bestiário, catálogo de monstros que eram usualmente impressos em gravura na Idade Média europeia. A aproximação com a xilo e a necessidade de me dedicar a uma pesquisa específica, monstros, desenvolveu habilidades como a procura por referências, experimentação de materiais sobre um mesmo tema e desenvolvimento de caderno de estudos. O curso acontecerá até dezembro.
Outro curso, Produção de Livro Independente, iniciado do ateliê de gravura e tipografia da casa de cultura Oswald Andrade com Fábio Mariano tem sido fundamental para começar a dar corpo aos projetos de livros artesanais. O objetivo é criar narrativa, forma e reprodução com recursos analógicos. Desde a criação de margens até escolha de fontes, ilustrações e criação de texto como experiência visual. O curso acontecerá até dezembro.
Sobre as maiores dificuldades de produção, certamente uma das principais é a dificuldade em agrupar de forma eficiente as referências pesquisadas como material de registro de processo. Fica ainda mais forte a necessidade de investigar plataformas virtuais e como usá-las de maneira acessível.
Conhecer idosas, reconhecer caminhos
Numa dessas tardes quentes que fez no nosso inverno, estava voltando para casa meio seca depois de encharcada de chuva atravessar a cidade pelo subterrâneo, levava na bolsa um conjunto de gouaches que me prometiam felicidades mil, e as frutas de dois reais a bacia que o moço vende na saída do metrô. Sempre que posso compro dele. Nunca pedi desconto, ele por sua vez me oferece uma bandeja a mais por metade do preço quase sempre; de sexta ele leva o aparelho de som, que toca reggae e brilha cheio de leds.
Naquele dia, o último lugar vazio era do lado dela. Me disse quais eram as suas frutas favoritas, os pés de planta que tinha no seu quintal, que suco era bom pra cada coisa. Disse que antes só tomava suco Tang e o médico proibiu, daí começou a fazer suco em casa mesmo. E não é só de laranja, não: de pepino, couve, manga, acerola. "Até de babosa dá pra fazer suco, sabia?". Agora nunca deixa de tomar os remédios, mas sabe que os sucos fazem muito bem, e se não fossem eles não teria a saúde que tem.
Me passou seu endereço, me disse para visitá-la com frutas, para a gente conversar e tomar sucos.
***
Enrolei o dia todo para ir ao mercado, e quando saio de casa já passa das 21h30, minha avó não gosta. Vou chegando ao mercado com o passo acelerado, subo a rampa desligada e quando estou quase no topo, percebo aquela senhorinha que não se aguenta em pé. Ofereço meu braço e companhia rampa abaixo, ela diz: "quero sim, hoje tô com as vertige".
Vai me contando, passinho de cada vez, que veio da Amador Bueno pra encontrar o sobrinho, mas ele deu o bolo. Depois de uma certa hora, fecha a saída de pedestres do mercado 24h, temos que entrar e sair pelo estacionamento. Os carros parecem não nos ver, vão tirando finas da dona Tininha que sentencia: "Melhor mesmo é ir pela rua que eles não vão ter coragem de passar por cima". Desiste de esperar o sobrinho, e a acompanho até o ponto de ônibus. Ela insiste que é velha, que pode ir sozinha e minha avó me espera em casa.
Me despeço, ela me abraça com os braços envolta do meu pescoço. Pergunta: "você acredita em trevo de quatro folhas?" digo que sim, ela abre a pochete, tira um saquinho e diz: "pega um aqui. Você bota ele num saquinho dentro da carteira". Pergunto se ela tem telefone: "o meu eu não lembro não, mas é só ligar no segundo batalhão [da PM] e perguntar pela Ti-ni-nha. Todo mundo me conhece lá".
***
Tenho aproveitado as tardes existenciais e a internet sem limites para ouvir videos motivacionais no Youtube. Uma mensagem que tem se repetido é a seguinte: "o que você busca está buscando por você". Às vezes me pego idealizando o objeto da minha procura quando sei que só é necessário abrir os olhos e ouvidos para as pistas que os caminhos dão, e desde o começo desse projeto, em 2016, aprendi a abrir minha percepção para mulheres idosas, suas preocupações e ensinamentos. Sejam sucos, trevos de quatro folhas ou a importância da fé em Deus. Pouco importa qual é a narrativa, mas importa que elas narrem, tenham vontade de falar, e que se proponham a abrir suas vidas e saberes a uma estranha no caminho, alterando meu corpo no mundo, trajetos celulares.
Naquele dia, o último lugar vazio era do lado dela. Me disse quais eram as suas frutas favoritas, os pés de planta que tinha no seu quintal, que suco era bom pra cada coisa. Disse que antes só tomava suco Tang e o médico proibiu, daí começou a fazer suco em casa mesmo. E não é só de laranja, não: de pepino, couve, manga, acerola. "Até de babosa dá pra fazer suco, sabia?". Agora nunca deixa de tomar os remédios, mas sabe que os sucos fazem muito bem, e se não fossem eles não teria a saúde que tem.
Me passou seu endereço, me disse para visitá-la com frutas, para a gente conversar e tomar sucos.
***
Enrolei o dia todo para ir ao mercado, e quando saio de casa já passa das 21h30, minha avó não gosta. Vou chegando ao mercado com o passo acelerado, subo a rampa desligada e quando estou quase no topo, percebo aquela senhorinha que não se aguenta em pé. Ofereço meu braço e companhia rampa abaixo, ela diz: "quero sim, hoje tô com as vertige".
Vai me contando, passinho de cada vez, que veio da Amador Bueno pra encontrar o sobrinho, mas ele deu o bolo. Depois de uma certa hora, fecha a saída de pedestres do mercado 24h, temos que entrar e sair pelo estacionamento. Os carros parecem não nos ver, vão tirando finas da dona Tininha que sentencia: "Melhor mesmo é ir pela rua que eles não vão ter coragem de passar por cima". Desiste de esperar o sobrinho, e a acompanho até o ponto de ônibus. Ela insiste que é velha, que pode ir sozinha e minha avó me espera em casa.
Me despeço, ela me abraça com os braços envolta do meu pescoço. Pergunta: "você acredita em trevo de quatro folhas?" digo que sim, ela abre a pochete, tira um saquinho e diz: "pega um aqui. Você bota ele num saquinho dentro da carteira". Pergunto se ela tem telefone: "o meu eu não lembro não, mas é só ligar no segundo batalhão [da PM] e perguntar pela Ti-ni-nha. Todo mundo me conhece lá".
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Tenho aproveitado as tardes existenciais e a internet sem limites para ouvir videos motivacionais no Youtube. Uma mensagem que tem se repetido é a seguinte: "o que você busca está buscando por você". Às vezes me pego idealizando o objeto da minha procura quando sei que só é necessário abrir os olhos e ouvidos para as pistas que os caminhos dão, e desde o começo desse projeto, em 2016, aprendi a abrir minha percepção para mulheres idosas, suas preocupações e ensinamentos. Sejam sucos, trevos de quatro folhas ou a importância da fé em Deus. Pouco importa qual é a narrativa, mas importa que elas narrem, tenham vontade de falar, e que se proponham a abrir suas vidas e saberes a uma estranha no caminho, alterando meu corpo no mundo, trajetos celulares.
sábado, 21 de outubro de 2017
Diário de bordo de Caio Jade
“Somos (...) imortais mesmo que em memórias esquecidas”
(“Oração à vitória” - Baco Exu do Blues)
Foi há poucos anos, e não poderia ser diferente dada minha pouca idade, que tomei consciência do que poderia ser a História, as Ancestralidades. Enquanto caminhava em uma rua de Santo Amaro, em São Paulo, percebi que os passos que eu dava, onde eles cortavam e cruzavam com meu corpo presente, muitos outros seres e histórias já haviam caminhado; percebi que o presente é prenhe de muito passado e experiência, como se o tempo e o espaço fossem feitos de diversas camadas que podemos acessar indiretamente, nas teias do inconsciente, nas percepções largas menos racionais. Memória talvez seja uma tecitura, talvez tenha mais a ver com fiandeiras do que com coleções de álbuns de fotografias guardados em gavetas; talvez ela se esconda, poética, em detalhes quase esquecidos nas poeiras do cotidiano, ou talvez ela se revele viva e ativa nas falas repetidas e persistentes daqueles e daquelas já velhos e velhas que deslocam o real ficcionando outros mundos possíveis com os quais a civilização não quis que nós nos acostumássemos; a juventude é impaciente com a velhice, talvez porque não entenda a poesia da subjetividade daqueles que já marcaram muita terra com os pés, e os rostos com o vento.
Noto nos meus risos, nas minhas lágrimas, uma fome de vida que por anos não foi possível. Olho aqueles e aquelas que se preparam para partir desse mundo e noto a mesma fome brilhando em seus olhos. Talvez a gente nunca desista, talvez a vida seja luta até o último instante. Na infância, na juventude ou na velhice, parte de nós é bicho insaciável que pulsa e sonha vencer a morte; entre desejos e cansaços, nos fazemos imortais.
Caminho pelas ruas, pelos bairros, pelos Estados do Brasil; o fio do corpo fura, corta, se entrelaça com outras tantas milhares inimagináveis malhas de Histórias. Tecidos de sentidos, de sensações, me trazem a certeza de que aquilo e aqueles que parecem miúdos precisam ser ouvidos, que é só a escuta que pode mudar o rumo das coisas e diminuir as desigualdades. A escuta pode nos levar às camadas do que já foi, do que compõe aquilo que agora é. Escuta ativa, participante, como uma fiandeira sentada ao lado da outra em uma fábrica em São Paulo no início do Século XX, como minha avó e sua irmã.
Memória é aquilo que nos veste, nos protege, nos configura, dá forma, prepara quem nós somos e para onde vamos. É presença grávida de passado, sem ser linear. É arbitrária, interpretação ao gosto das paixões, se forja em ringues no inconsciente onde não controlamos nada. Eu gosto é do que chega, do que colocam no mundo. Gosto de ouvir minha vó contando tudo que quer, ver sua fala puxando os ânimos e o resto do seu corpo magro e cheio de dores em gestos. Não tem nada a ver com realidade ou ficção, verdade ou mentira, ou com proximidade com fatos, é o melhor do teatro, como é com todo mundo - em qualquer idade -, é liberdade e subjetividade, precisa ser escutado e acolhido. Seria esse, então, um milagre na poeira do cotidiano, uma história lançada ao vento, ao mar, esquecida entre os fios do destino e que, já não mais fazendo parte do nosso consciente, vai ser parte da nossa imortalidade. Nunca me esqueço do ato epifânico da Maude, no filme “Harold and Maude” do ano de 1971 - brilhantemente traduzido como “Ensina-me a viver”, onde a senhora, já velha, ao receber um presente carinhoso do jovem por quem se enamorara, lança-o ao mar dizendo “agora sempre saberei onde ele está”.
terça-feira, 13 de junho de 2017
Retomada, recomeço, refazendo tudo
O ano já anda pela metade e sinto agora os primeiros respiros de um novo ciclo. É engraçado olhar para os meus pés e perceber que tem sido poucos os caminhos que posso trilhar, e que um ano depois ainda estou batendo a areia sob meus pés, repetindo ciclos que já vivi, já sei pronde vão e lá vou eu em meu eu oval, rolando vida afora ladeira abaixo.
Estou ouvindo a vhvl e tem esses lances de se identificar muito com alguém de uma maneira tão entregue, que sobra menos tempo pra criticar e ficar achando problema aonde não tem. Ficar vendo a menina lá longe, sendo nova, se crescendo e espalhando num som muito novo e raro; mas também a lentidão dos processos em comparação com os boys amigossonnoros ao redor, então me vejo, eu mesminha, respirando meus tempos tão lentamente enquanto tudo me diz que é pra já, que já está sendo. Percebo esse tempo idade âncora que conforme passa, acrescenta gravidades às escolhas, e de repente passarinho já virou galinha que é metade dinossauro.
Impossível não pensar que o dito tempo improdutivo que passei e me incita os anseios, era um respiro tão curto nessa terra dura. O que deveria ser rotina, prática, nem precisaria ser citado! mas ocupa dias noites semanas meses tempo enrolado em novelo para apenas gostar de viver eu mesma. É tão difícil saber que existe um mundo exterior real quando aqui dentro são abismos infinitos, muito ar que falta na imensidão. Preciso aprender a mimar quem dorme comigo toda noite, que me abraça, que me mima e tantas vezes odeio, desprezo, maltrato. É preciso ser meu próprio carinho e lugar seguro.
Embora ainda não saiba onde mora esse segredo, tenho pensado e querido cultivar a paciência, apaziguar essa fúria de querer tudo para já ou nunca. Sinto falta dos meus óculos. Labirintos. Outra escolha têm sido as retomadas, passar de novo por caminhos e andar as geografias conhecidas, dar-se tempo de aprender passados. Editar o que existe, nem tudo que é novo é criação.
***
Estou, como sempre, nadando num mar de muitas incertezas e tenho tentado achar um emprego, preciso fazer umas granas mais ou menos certa e regular, pagar umas contas, aparar umas arestas que andam me magoando.
Estou trabalhando seriamente em montar um currículo e portfólios vagamente aceitáveis. Não é um trabalho fácil. Tantas vezes passo por esse caminho, poucas vezes com algum resultado que me agrada. Casa com isso a tentativa de voltar a passar pelas coisas, editar trabalhos, retomar planos parados, ao invés dessa busca incessante pelo novo, sem dar tempo de amadurecer nenhum processo. Ficar com tantos processos mentais sem realizar as coisas, quando só precisava estar realizando uma ou duas pra ter mais vazão energia, tempo, vontade.
Estou trabalhando nos caderninhos: digitalizar e postar os processos brutos, além de transformar numa publicação sobre a minha experiência de deslocamentos em SP. Isso é um dos pontos tensionados da minha vida: porque sabotar tudo o que começo? Preciso desenrolar a Móri Impressões com amor, dar fim ao trabalho começado, adquirir experiências para o trabalho vindouro.
Além disso tenho visto pessoas, conhecido gente bacana, indo a novos lugares. Tem sido bom respirar outra cidade, e desejos para o futuro começam a borbulhar. Aprender outras maneiras de experimentar a cidade, e retomar as que já funcionaram antes e podem continuar funcionando agora. Estou sentindo uma energia que andava ausente, mas ainda falta um ponto para recarregar as energias, que certamente é fora, outs. Onde? É preciso procurar.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
Oficina de zine - 05fev
A segunda
oficina oferecida pelo projeto, sendo a primeira com o tema zine. A
princípio, seriam 4 dias de oficinas, divididas em dois momentos:
caminhada fotográfica e produção de zines. Com o avanço das
pesquisas e a percepção das dinâmicas de tempo, optamos por
explorar apenas um tema em cada encontro, sendo duas de fotografia e
vídeo no celular, oferecidas por Nubia Abe e duas de zine e
publicações independentes, oferecidas por Luara de Almeida.
O intuito
foi criar um pequeno ateliê de criação, disponibilizando zines
para leitura e consulta, material para desenho e colagem, além de
máquina de escrever, impressora e xerox, recursos que foram usados
com entusiasmo pelos participantes. O espaço, colorido e bem
iluminado, foi convidativo, bem como ter um balcão com alimentos e
bebidas. O programa previa um momento para comermos juntos, num
pique-nique, mas percebemos que os adultos, em sua maioria
responsáveis pelas crianças, se reuniram ao redor do café, criando
um outro espaço de intimidades, no qual conversamos, conhecemos
histórias e compartilhamos os quitutes, que ocasionou maior
liberdade para as crianças interagirem entre si e com as
participantes.
A maior
dificuldade encontrada foi o quesito divulgação. Uma das
estratégias que encontramos foi a inscrição por WhatsApp, e
criação de grupos para discutir as temáticas a serem abordadas nas
oficinas. Apesar de ter sido veiculada nas redes sociais (Facebook e
Instagram), além de cartazes espalhados pela vizinhança, a maior
parte do público era composta de pessoas que estavam passando pelo
parque durante a atividade e foram convidadas a fazer parte do grupo.
Diversas pessoas passaram pelo espaço, sendo que onze delas
produziram materiais – em sua maioria crianças. Também por serem
grupos espontâneos, surgiu a dificuldade de oferecer uma oficina
única e linear; ao invés disso, cada grupo foi recebido pelas
integrantes do coletivo, estimulados a produzir individualmente.
A série
“O guia definitivo da zine”, criada com o intuito de ser material
de apoio para as discussões nas oficinas se tornou uma
“lembrancinha”, juntamente com outras zines produzidas durante o
projeto. A dinâmica dos grupos não propiciou a discussão teórica,
mas creio que em nada diminuiu o valor das produções.
O
resultado da oficina foram 11 materiais produzidos, entre colagens,
ilustrações e zines. Sobretudo, acredito que o intuito do projeto,
de cartografar afetos se fez presente durante as discussões, as
conversas compartilhadas, as diversas histórias de pessoas que
vieram de longe, como Ferraz de Vasconcelos, as famílias que vão ao
parque todo final de semana, conhecer pela narração da sobrinha a
história das tias, que querem ser escritora e veterinária, as
trajetórias de Dona Ana, que gosta de melão japonês, o ciclista que
tem duas filhas felinas e fez uma zine de reconciliação para a
esposa. Novamente, nos encontramos num lugar de convergência de
histórias, compartilhamento de intimidades, cartografia afetiva.
domingo, 2 de outubro de 2016
registro de deriva: pra onde vai minha atenção?
comecei no parque os espinhos das árvores as formas os contornos as curvas observando cada árvore cada detalhe como são lindas como são resistentes brigada migas por rexistirem nesse lugar tão uó vocês ahazam muito e o rio ah o rio todo sujo todo fedido tadinho todo cheio de lixos e toda a sorte ou o azar de coisas seguindo a correnteza me chama a atenção uma sacolinha plástica amarela seguindo o fluxo com a água cor de burro quando foge mas não consigo pegar o cel a tempo pra fazer um video um rio nunca é o mesmo rio e um rio numa cidade só piora sorte desse de ainda estar vivo sorte dele de conseguir ao menos ver a cor do céu e algumas árvores e passarinhos tantos outros por aqui não tiveram o mesmo destino "feliz" tantos outros foram soterrados sem dó nem piedade e tão presos embaixo dos nossos pés embaixo de trocentas camadas de concreto esse pelo menos tá "livre" só que não né mas é rio é força é fundamental valeu migo vc é muito importante pro mundo força aí que um dia essa fase ruim vai passar encontro os migos sentamos os quatro numa árvore pra trocar ideias informações estabelecer parcerias diálogos entre projetos momentos agradáveis tempos depois seguimos a vida pelo parque observo as pombas duas delas tão fofas de boas na viga de cimento em cima do rio penso em fotografar mas mudo de ideia pois penso que pombas em cima de vigas é algo tão comum pras pessoas que talvez a imagem não seja interessante mas nesse momento me bateu a atenção pras pombas e a partir daí comecei a observá-las meio que sem querer minha atenção caía sobre elas passamos por uma criança deitada no chão de concreto sendo criança apenas se movimentando de um jeito qualquer sempre tenho vontade de fazer igual mas só pra criança é permitido pq crianças não são levadas a sério aí tudo bem ficar brisando mais adiante uma oferenda pra cosme e damião atravessando a rua um varal de salgadinhos pipocas e amendoins compro dois amendoins e uma pipoca tudo por um e cinquenta pergunto se pode fotografar o varal ele todo temeroso mas gentil rapidamente responde que não pois ele não pode estar ali com esses produtos um cara passa e pergunta pra ele como faz pra carregar bilhete único ele responde que carrega no bolso mesmo me despeço ganho mais uma pipoca continuo observando e tentando filmar as pombas elas são tão lindas tão de boas mas pássaros são criaturas tão ariscas quando outras existências esboçam movimentos de se aproximar eles já fogem bem que fazem tão certos passei um bom tempo tentando me aproximar das pombas e vez ou outra de alguns outros passarinhos coloridos que apareciam mas esses são mais ariscos ainda faço alguns videos que talvez não sejam interessantes pras pessoas pois são só pombas meio de longe andando nas vigas da ponte mas eu gosto e o olhar é meu e o afeto é meu então resolvi fazer porque isso aqui é também sobre o que nos afeta pra onde a gente olha pra onde vai a nossa atenção continuo o trajeto e então surgem os pés de amora algumas no chão gosto do chão olho muito pro chão muitas amoras no chão elas caem e tingem muitas manchas roxas de ex amoras que habitaram esse chão são lindas elas no pé e a imagem esmagada delas no chão é tão linda quanto trágica agora são as amoras esmagadas que me distraem e fico ali durante um bom tempo observando e fotografando as amoras esmagadas as mais recentes molhadas brilhosas mucosas sangue fresco as mais antigas já secas já desaparecendo definhando e as manchas que elas deixam de rastro depois de tudo observo também as flores secas no chão o chão é lindo não consigo parar de me admirar com cada detalhe do chão até com os lixos ah os lixos observo um por um eles não são lindos são sintomáticos a imagem deles é forte as tampinhas de garrafa embalagens bitucas quanto lixo em todos os lugares compõem junto a paisagem um cara sentado vendo o movimento dos carros insanos na avenida me chama e me mostra que mais adiante tem muito mais pés de amora vou seguindo encontro famílias colhendo amoras crianças avós o neto que sobe e chacoalha o pé pra gente pegar as amoras que caem no chão como são frágeis uma queda pode machucar caem muitas a maioria fica ali mesmo no chão salvo algumas as senhoras com potinhos pra guardar as amoras as amoras no asfalto os carros passando sem trégua os passarinhos cantando sigo adiante sinto que é hora de sair do mato de derivar na cidade sigo sem conseguir parar de me admirar com o chão vejo em cada rachadura um universo em cada verde que nasce entre o concreto uma esperança é ridículo mas é bonita essa imagem vejo rios raios raízes crateras superfícies lunares vistas de satélite olhos de et a maneira como as cores dialogam com os traços os ruídos nas calçadas partidas as árvores sobrevivendo buscando espaço pra que suas raízes possam respirar uns caras sentados numa mesa dentro de um restaurante me chamam e pedem pra que eu tire uma foto deles sigo adiante sendo guiada pelas distrações os troncos das árvores estou na cidade agora mas o mato ainda me chama os troncos um cactus imponente com brotinhos no topo as águas de coco no cercadinho paro no local das águas de coco gostei do lugar as paredes verde e roxas os salgadinhos lucky no varal parece um lugar na beira da praia de cidade pequena o cara que trabalha lá sentado numa mesa olhando a vista que poderia bem ser o mar mas era a avenida onde os carros não param de passar nem por um segundo tem uma árvore enorme na frente do local o tronco dela é tão cheio de detalhes e belezas e dores ela é muito grande o concreto a sufoca tem pregos nela será que ela sente tem o telhado sigo adiante um paredão laranja com uma porta laranja e uma suposta ex porta laranja ao lado mais águas de coco entro na rua das águas de coco os portões grávidos o cachorro manco decido que a partir de agora o cão será meu guia onde ele for eu irei seguimos os cães nas casas latindo muito talvez pelo desejo dessa liberdade sobe desce curva cocô uma kombi simples um cara dentro com uma roupa colorida produtos de limpeza o cachorro me levou até o cara o mesmo que falávamos na reunião na árvore que dizias que querias acompanhá-los um dia o cara dos ovos esse cara algum desses mas que nunca tinha dado tempo de chegar até eles quando eles passavam lá esse é o cara que circula pelo bairro vendendo produtos de limpeza multicoloridos pra senhoras donas de casa jovens adultos falando no megafone paro pra trocar uma ideia com o cara ele é ótimo combinamos de um dia acompanhar o trajeto filmando.























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