segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Beija-Flor: oficina de audiovisual intergeralcional com Laryssa Machada

1o dia: 
conversamos sobre a importância da troca de conhecimento entre os jovens e os mais velhos, incentivando a escuta atenta para com seus avós.
falamos sobre a utilidade do celular como ferramenta para criação artística e de registro. eles falaram que já fazem atividades que envolvem audiovisual e que ano passado realizaram uma cartografia afetiva nas suas comunidades. são bem empolgados com o assunto.
assistimos e comentamos alguns videos, curta-metragens, clipes, feitos com o celular, por jovens indígenas e periféricos.
falamos um pouco sobre técnicas básicas de como gravar e entrevistar.

2o dia:
recebemos a visita das idosas do NCI Pereira. foi um encontro bem intenso e inspirador. xs idosos compartilharam várias histórias de luta e superação em roda, enquanto os jovens escutavam de olhos atentos. foram realmente fortíssimas as histórias, de pessoas que cresceram sem pais ou com grandes dificuldades econômicas. dialogou bastante com a realidade dos jovens.
num segundo momento cada jovem escolheu uma idosa e teve um momento de troca mais íntimo, ouvindo e compartilhando. alguns registraram, outros não. ressaltamos a importância maior de escutar com atenção e sensibilidade do que de apenas ansiar por imagens. foi bonito. muitos se emocionaram.
fechamos com uma breve avaliação do encontro, na qual todes se mostraram satisfeitos.

3o dia:
comentamos sobre como foi o dia anterior, se gostaram e o que bateu pra eles. vários citaram o depoimento de uma idosa de 80 anos que cresceu na Fundação Casa, morou na rua, adotou uma filha, fez cinema na USP e hoje está ótima. falaram que ela era muito chavosa. pra outros pareceu um pouco cansativo só escutar.
assistimos aos vídeos e fotografias realizados no dia anterior. comentamos sobre o que poderia melhorar - eles mesmos apontam os problemas. conversamos bastante sobre seus interesses (filmes, canais no youtube). assistimos alguns trechos de "Besouro", filme brasileiro sobre capoeira que pega forte a atenção da maioria.
os jovens pegam as câmeras e fazem algumas imagens, ao passo que vamos compartilhando técnicas.


pt. análise pessoal: foi incrível. as pirraia são muito ligeiras e porosas pra trocar e aprender. as idosas têm histórias de renovar as ganas de vida. muito queridas e fortalezas. infelizmente tivemos bem pouco tempo, porque cada encontro durou cerca de 1h30 (exceto o 2o que durou umas 2h30), o que dificulta um pouco o aprofundamento em técnicas e tal, que as crias tem o seu tempo de distração/etc.
eu e nube falamos sobre o desafio de criar realmente uma troca entre as gerações, por as idosas terem bastante pra falar e os jovens uma leve timidez ou impaciência.
acho que foi bem positivo como um todo e as histórias que realmente tocaram cada uma de nós "transcendem o registro e ficam na memória", como disse Ilda, a idosa que fez a primeira fala.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

ajuntando o que faz sentido

Chegamos até aqui, três anos de trajetos celulares. Faz tempo que surgiu a vontade de ouvir histórias banais de idosas do cotidiano. E agora, nessa reta final, vão nos atravessando as faltas, o que não sabemos, e, por fim, a agonia de ter que transformar um projeto que é todo carinho e afeto em produto, porque ou é isso ou é morrer aqui, sem verba e sem tempo esse fazer tão bonito, que tem guiado os tempos. 
Por outro lado, sobram as ausências de um trabalho tão longo: porque não temos mulheres de outras organizações sociais, de tradição oral, que valorizam o passar do tempo e a sabedoria de quem viveu mais: aprender a escutar as histórias como exercício formador da identidade, do corpo no mundo, do fazer cotidiano. E assim vão se abrindo os caminhos - e que todo fazer artístico precisa também de uma roupagem de mercadoria.
Não sei porque essa alumiação só veio agora. De algum jeito é também uma sensação de estar descolada do mundo, das importâncias, de além do umbigo. Pensando nisso, convidamos Laryssa Machada para compartilhar as suas experiências e produções audiovisuais. Compartilha das experiências com idosos e com a escuta de histórias - e também das investigações sobre corpo atravessado no mundo - e esse aproximar é também grande possibilidade de desenrolar futuros, e seguir trabalhando.

Refúgio de raiz - Comunidades quilombolas do RS
Memória Viva

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

comunitária nov18


Com a incrível proposta de sair rumo à minha primeira residência artística, em novembro rumei só para a Argentina, minha primeira vez fora de território +55. Alguns meses antes me inscrevi no programa de residência Comunitaria, iniciativa do MuBAL, Museu de Belas Artes de Linconl, na província de Buenos Aires em parceria com Curatoria Forense. 
Partimos 11 artistas - maioria brasileiros e todos falando um mal espanhol, ansiosos sobre comunicar-nos, mais 3 curadores. Desde a cidade de Buenos Aires, atravessamos cinco horas de trigo e soja numa reta infinita, embalados de sono e cumbia rumo à nossa primeira parada em Linconl. Três dias depois, cada um de nós artistas partiu para um dos onze pueblos para nossa experiência. Fui para Martinez de Hoz (a saber, sobrenome de notório militar do período ditatorial da Argentina, assim como seu distante parente espanhol, militar que roubou terras Mapuches onde hoje está fincado "meu" pueblo). Cidadezinha de mil habitantes - uma das maiores entre as onze. 
De antes já conhecendo meu trabalho com idosas, o delegado da cidade, algo como o prefeito, se põe a me apresentar os mais diversos idosos do lugar, que me parece a população que abunda. De fato, por só possuir ensino para jovens até 18 anos, a maioria se vai para estudar. Alguns voltam, muitos não. Inevitavelmente, surge a saudade do trem - há 30 anos, quando passava, os jovens podiam estudar em outros lugares e seguir morando em MdH, devido ao baixo custo do transporte. Hoje não há coletivos, se não possui carro é preciso ir "de dedo" a outros lugares. Também há que não sinta falta do trem: com ele, não teriam trabalho os caminhoneiros que escoam toda a produção de soja e trigo do pueblo; profissão que parece ser uma mais comum entre os homens adultos do lugar. 
É estranha a sensação de que todos te olham quando passa, e quando é real é ainda mais assustadora. Ando pela cidade, gosto da hora da siesta, ainda que o sol pareça querer colar-me no asfalto. Caminho pelos dias, como andar à deriva por uma cidade de 29 quadras? Não há pixos - nem nenhum tipo de intervenção urbana que preencham o tempo do caminhar. Me fisgam as casas vazias, são tantas, entrando em quintais sem portão para ver as casas - algumas cheias de lixo e plantas, outras fechadas sendo gentilmente envolvidas por abraços vegetais. São convidativas, e de repente me percebo em dúvida se estão vazias ou não. Todas as casas estão de janela fechada (mais tarde descubro que também de luz acesa e tv ligada) apesar do sol escaldante luminoso que faz fora. Passo a investigar as teias de aranha que estão em tudo: nas janelas, nas dobradiças, nas fechaduras. Quando começo a entrar em jardins vazios, me deparo com papoulas. Em toda MdH há papoulas, ervas daninhas. Me pergunto se tantas amapolas soltando seus aromas sob o sol quente dá canseira nas pessoas dali. 
Uma tarde de sol, catando papoulas e outros matos floridos e fugindo dos cachorros que ladravam mais, cheguei ao hogar de ancianos, na última quadra asfaltada, antes do "subúrbio", como me disse uma moradora, as casas que ficam nas ruas de chão de terra vermelha, à beira dos campos de trigo. Me pareceu um convite para entrar. Apesar da pesquisa sobre idosos, há muito não entrava num asilo. É triste que a força que se faz para não enxergar a velhice é real, e lá estavam 12 idosos, trancafiados dia e noite em uma casa. Me acolhem receosos, alguns me evitam. As que conversam comigo, peço que desenhem um mapa da cidade, recurso que usei para me aproximar de crianças e puxar assunto com os adultos. Se nos mapas das crianças abundam praças e padarias, o hogar, ausente nos mapas, é o único que as senhoras podem desenhar. Não se lembram da cidade, não são dali, não existe urbe além das paredes que limitam seus dias. É hora do jantar, prometo voltar no dia seguinte.
Voltar cria uma reação de afeto muito grande, elas me beijam, me abraçam, perguntam da minha vida, contam as histórias do passado e as dificuldades da convivência com pessoas que não possuem laços, mas são obrigadas. Sigo voltando dia após dia, e tenho ganas de levar companhia para elas, de levá-las para Buenos Aires para passear, tenho ganas. Esse desejo avança, ganha espaço, e penso o que se pode fazer em uma semana de viver em um lugar, estar, pertencer, partir e afetar. Se de um lado, a vontade de trabalhar com texto, do outro, a vontade de tentar algo novo. Me ocorre fazer lambes em tamanho natural de cada um dos moradores do hogar e espalhá-los pela cidade, com uma linha de tinta que os ligasse cada um deles ao ponto de partida, sua - provavelmente - última casa. Por questões burocráticas com a urbe - tão pequena, tão vigiada, tão podada que nem mesmo a arte de rua cabe, fui de interferir no espaço. De emergência, encontra-se uma vitrine no espaço mais próximo de um centro cultural que pode sobreviver na árida Martinez de Hoz, Independizarte. 
Depois de apresentar às minhas amigas seus duplos sorridentes, levo as outras elas para fora, para o ar, para caminhar as poucas quadras de MdH. Respiram pouco, e logo estão encarceradas de novo, mas dessa vez olhando a cidade. Vou pregando Fanny, Juanita, Irene, Virgínia, Maria Elsa, Martín, Hilda, Irma. Sorrindo através do vidro, preenchidos de pueblo, corpos velhos, esquecidos, abandonados, invisíveis flutuando na vitrine, na única esquina que fala de arte por ali. 

Venho embora atravessadas de questões, e a certeza que meu trabalho é sobre escuta, observação e incômodos.

domingo, 16 de dezembro de 2018

referência é tudo, bb

Chega um momento em que as lacunas em aberto dos Trajetos soam mais como descaso do que inocência, então aqui estamos. Para a etapa final desses três anos de projeto, a urgência é parar de pensar a casa, o íntimo, o individual e abrir os olhos para a sociedade, para as necessidades coletivas, para as políticas públicas, pela vivência coletiva. 
A pesquisa que vem sendo fomentada nesses anos precisa ser transformada em material acessível não só aos idosos, mas a toda comunidade - como um verdadeiro esforço de visibilização de corpos esquecidos e existências pouco valorizadas. Assim, surge a necessidade de juntar as informações, estruturar um material que tenha formatos impresso e virtual que seja material de circulação do projeto. 

Os governos municipal, estadual e federal possuem ações sociais para atender idosos, e acreditamos que tornar públicas essas informações é tarefa #1 de Chakumbolo. A princípio, usaremos uma plataforma de mapas do Google.

A vontade de fazer uma publicação sobre o estatuto do idoso e a dificuldade de se apropriar de textos jurídicos incrementa a pesquisa sobre quem está fazendo cartilhas: UNISAL, Observatório do Idoso, OAB, Assembléia Legislativa RS, Ministério da Saúde, Tribunal de Justiça DF,  obviamente o Estatuto do Idoso e o site do Ministério de Direitos Humanos que está fora do ar - coincidência? Acho que não. Achei esse pdf acessível apenas.

Também é fundamental o contato com organizações que trabalham a permanência e ação de idosos, fontes não só de pesquisa como também potenciais parceiros para divulgação e circulação do projeto dentre os quais: Fórum do Cidadão Idoso, Portal do Envelhecimento, - verificar se esse ano acontece o fórum do idoso na Cidade Tiradentes, Jornal da 3a idade, Sesc, Conselho Municipal da Pessoa Idosa, Conselho do Idoso SP, Conselho Estadual do Idoso.

Ontem conheci os Jardins de Soraya, um instituto que promove o envelhecimento com dignidade, estivemos no espaço anexo ao hospital, com amplo espaço para eventos e que atende, entre outros perfis, idosos de classes sociais bem diferentes das personagens do Trajetos. Penso na vontade de expandir o diálogo e poder circular em outros espaços da cidade - e como é que se abre esses caminhos. 

No mais é isso / engraçado como nos últimos 3 anos é o VAI que determina meus tempos, as férias, os tempos de trabalho e esse dezembro é bem meio de tudo, quem ouviu falar de férias?

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

oroboros

Olhando para trás, Trajetos Celulares é de uma constância admirável: apesar das várias dificuldades, o grupo permaneceu, se adaptou, consegue seguir se reconstituindo, repensando, repropondo. E após quase três anos de idealizado, eu Luara, reconheço o belo percurso proporcionado pelo fomento: a possibilidade de investir não só em uma ideia movida pelo afeto de estabelecer laços com idosas, mas em um projeto de vida, Móri Zines, que vejo hoje como abertura de caminhos entre as publicações independentes. Sem esquecer os cursos que me aproximaram do inacessível e elitista mundo da arte, como me apropriar e, de fato, começar a pensar sobre o capital que circula, planejar chegar a ele. Um edital, mais do que verba, é possibilidade de desobrigar do emprego do tempo em relações  comerciais, haver estrutura e incentivo para pesquisa, criação, diálogo.

Em setembro começamos o terceiro ciclo, Conhecer idosas, reconhecer caminhos, com equipe ampliada e mais especializada, e assim esperamos alcançar o grande objetivo de tornar as histórias ouvidas até aqui públicas, aproximar o público do material produzido e, sobretudo, aproximar esse grupo diverso das questões que afetam a esfera pública do universo do idoso, o acesso  a direitos, o uso da cidade.




Após o primeiro encontro com o NCI Jardim Miriam, surgiram algumas questões e a necessidade de pensar que relação queremos estabelecer com essas idosas, como nos colocar, que questões levar em conta. Essas primeiras perguntas deram origem a essa pesquisa sobre referências de trabalhos que pensam a velhice, além de instigar questionamentos sobre que materiais queremos produzir, como queremos impactar a sociedade. Sobra a vontade de ter pernas para editar Avozine, uma publicação independente apenas com produções de idosas, abordando temas de relevância para o idoso como sujeito social. 


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Irrefreável fim: Dona Queta

Trabalhava na roça
Carpia café
Abanava café
Apanhava muito
Não era ruim não, a vida.

Aquela mulher franzina, enrugadinha, cheia de alegria que conhecemos há mais de ano está curvada sob o peso enorme do Alzheimer. A cada visita, sobra a certeza do que o fim se acerca, a decrepitude da memória, por mais triste que seja, ainda narra histórias circulares que se repetem como o disco riscado, ainda explodem as risadas, levanta as sobrancelhas já sem pêlos enquanto me olha. Já não me reconhece, mas também não me estranha. Terrível mesmo é o corpo definhando, o pé que não sara, a fome que não existe, a falta de forças para a longa jornada de ir ao banheiro e a falta do desejo de água. Afinal são 98 anos de roça, casamento e vila Franci. 98 anos que, em vão, tentamos capturar em memórias, poéticas, frames. A verdade é que nos apaixonamos pela personagem e isso não foi o bastante para nos ligar à velha.
Passei o dia atormentada com minha própria indisponibilidade, cumprindo apenas as visitas burocráticas, os saltos no tempo em que eu mesma não sinto no corpo: como se fosse ontem. Ela, por sua vez, cada vez mais pertinho do abismo indecifrável que é o fim, a morte, ou antes a loucura, a realidade paralela do tamanho das suas sinapses desgastadas. O fim tem cheiro, cor, e pesa muitíssimo, escorre pelos degraus, empesteia o ar, atrai as moscas, desbaratina quem está ao redor. 
Por mais pesar que me desperte, afinal ela está tranquila na sua jornada, cada vez mais calma; a filha, a mulher responsável por ela é quem me preocupa. Vejo um corpo exausto, envergado pela solidão e as responsabilidades, as culpas, os medos. Alguém só, em confinamento com a loucura e o fim, mantendo-se quase seca na margem na sanidade e da vida, tantas vezes arrastada pela correnteza feroz que é ser inteiramente responsável pela sobrevivência de alguém. Enquanto ela fala muito rapidamente sobre os problemas de hoje, os traumas do passado, as narrativas encantadas, não deixo de ver um arquétipo mulher sob o peso do patriarcado: confinada e sozinha, julgável, despetalada. Nessa filha, enxergo a solidão que acompanha as minhas amigas-mães. Se por um lado não nos responsabilizamos por nossas crianças, de outro negligenciamos os nossos velhos. Ávidos por juventude, sucesso, prazer, experimentamos a vida como drops, sem se dar ao trabalho de aprender com os velhos, se doar para quem não tem mais tônus para encarar a vida. Não cuidamos das pontas do nosso bando, fechamos os olhos para as dores que precisam de visita, escuta, suporte. Não queremos lidar com o fim, e cheios de birra, viramos a cara para os velhos.
No ano que minha avó nasceu, dona Queta se casou. Sei da dificuldade de minha avozinha em lidar com o mundo: tv, tablet, carnaval, whats, a falta de respeito. "Ninguém quer saber dos velhos", ela diz. Sempre jogado pelos cantos da minha cabeça, ignoro o pensamento de que se aproxima, cedo ou tarde, o dia em que será minha avozinha sentindo a vida deixar seu corpinho resistente ao tempo. Penso que tenho sorte de estar perto, mas também sei que estou tecendo minhas responsabilidades de futuro breve. 
Não descola da minha retina o sorriso que ela derramou em mim quando toquei sua mãozinha tão magra, seus olhos amarelados incógnitos. Quer comer polenta com quiabo, precisamos com certa urgência providenciar. No fim, limitadíssima no meu mundinho, só quero e posso proporcionar prazeres efêmeros, arquitetar as melhores memórias possíveis. Desejo que sobre para a Nice qualquer boa lembrança do fim de sua mãe, apesar da exaustão, apesar do cansaço. Anseio por ver a alegria delas de ver a comida ser apreciada, as estranhas ouvintes. 
Esse misterioso ofício que nos demos, de romper o cotidiano, abraçar passados e ouvir histórias.

Trabalhava na roça
Carpia café
Abanava café
Apanhava muito
Não era ruim não, a vida.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Webdoc, imersões e expansão de horizontes

Nessas de me inscrever em tudo que aparece, acabei caindo no Hackathon WebDoc Novo Centro do estúdio Crua. Foi uma surpresa sem tamanho ver meu nome na lista de selecionados, e outra surpresa maior ainda me ver ali, analógica e autônoma, no meio de um monte de profissionais do audiovisual, mestres, doutores e a coisa toda. A proposta era "simples": 16 profissionais criarem um webdoc sobre o centro novo em 6 dias.
Parecia ótimo, mesmo sem nem saber o que raios é um webdoc. Foram várias emoções fortíssimas, uma experiência que não só alargou os horizontes de possibilidades para vários projetos, Trajetos incluso, mas afetou meu corpo, minha disposição, os meus olhos para o centro de sp, já tão cansado nas minhas retinas. Processos imersivos são maravilhosos, adoraria ter uma experiência assim por trimestre (tá jogado pro universo!).
Exercício contínuo de registro de processo, sinto muito não ter conseguido fazer isso em audiovisual. A partir das anotações feitas durante os dias de processo, busquei organizar aqui as referências e ideias gerais apreendidas durante o curso.

Referências

WEBDOCS


Plataformas


Bibliografia




Comofas WEBDOC

  • ***NÃO SE APEGUE MUITO ÀS IDEIAS***
  • a história é o mais importante
  • material para internet, utiliza ferramentas disponíveis apenas online
  • questões urgentes/ direitos humanos/ documental/ patrimônio/ memória
  • novas abordagens
    • design/ plataforma como expansão de informação/ fluidez
    • roteiro não linear
  • mudança de paradigma: o consumidor também é produtor
  • take action: como o público pode se envolver
  • para criar fluxo para a web é preciso contato direto e envolver personagens
  • diálogos com a comunidade
  • a partir do tema, abrem-se as possibilidades de abordagem e coleta de material 
  • o tema central desdobra-se em subtextos
  • categorização de informações: permite diferentes narrativas
  • guiar navegação: que o site seja intuitivo e autoexplicativo
  • mesma id. visual para todas as plataformas: coesão entre diferente formatos/ adaptação de linguagens/ como atingir diferentes públicos
  • hierarquia de menus
  • indicar quais caminhos já foram seguidos (menu linear)
  • a interface e as opções de caminho: usabilidade
  • taguear os materiais para saber onde/ como usá-los na interface
  • ambiência sonora
Linhas gerais
  • digital storytelling: como a história será interativa
  • desenvolvimento: ferramentas e plataformas
  • digital design: id. visual, iconografia, usabilidade, elementos gráficos
  • UX: projeto/ ferramentas/ hierarquias de informação
    • wireframes (rascunho de estrutura)
    • mapa de navegação (importância/ caminhos): tags, ícones
    • design de interação
  • tema/ problemática/ equipe/ período/ atuação/ conteúdo
Pensando o Centro
  • processos de remoção dos elementos negros do centro - e os movimentos de resistência
  • Tebas, construtor negro alforriado
  • coletivos de catadores e estruturas femininas
  • Vale do Anhangabaú: fonteira entre centros novo e velho
  • pólo de lixo, concentração de população de rua, equipamentos públicos de saúde e cuidados

domingo, 3 de dezembro de 2017

Diário de bordo de Caio Jade #2

03/12/2017

“Somos (...) imortais mesmo que em memórias esquecidas” - Baco Exu do Blues.

Quando eu nasci, ela já era velha. Carregado pra dentro da casa, nos teus braços de imperatriz, eu pequeno soldado; “essa é a tua casa. seja bem-vinda, Jade”. Ela cuidou de mim, cuida. Nas orações, no pensamento, no dinheiro da pensão do marido, avô falecido logo antes do meu nascimento, mecânico (sempre asseando as unhas e dedos pra não ficar cheio de graxa), ela me mira e olha e me aceita, eu assim menino aos 25 anos de idade. “Agora é filho então? meu Cainho, meu Caio. Vai ser pra sempre minha Jadinha”. Toda doçura, mimo e amor de vó. Avó é fundamento, é a ponte pro mundo onde aprendo o que pode ser a responsabilidade, a honra e a gratidão; viver no mundo se torna um pouco mais fácil quando passo a ouvir o que os mais velhos têm a nos dizer; agora eu entendo. Ela deu sua vida aos outros. Magrinha e fraquinha, agora é ela quem pede por carinho, mimo, atenção quase total. É a demanda da velhice, essa segunda infância, mas plena de experiência; é corpo que transborda não mais de potência, como nos pequenos, mas de plenitude e realização de si mundo. Ali o desejo ainda pulsa, nunca para; remói, remonta e atualiza, busca caminhos possíveis, busca suportar o presente de velhice e de impossibilidade motora, impossibilidade de bem estar emocional atual. Helen Puosso Cardoso Gouveia. Algumas filhas invejam o Puosso quem não têm no nome, outras se gabam por ter. Menina pobre do interior do estado de São Paulo, Birigui. Conheceu a fome, a mudança pra capital aos 9 anos de idade pra servir de empregada doméstica em troca de casa e comida a uma família. Filha de imigrantes italianos. Helen é fundamento, estrutura e assentamento. Firme de fé na Congregação Cristã do Brasil. Nascida em 1926 no dia 6 de dezembro, sagitariana. Em três dias, completará 91 anos. Minha avó, minha ancestralidade.


(...)


Tenho 25 anos, desses, 24 foram vividos impostos dentro de uma pele de cordeiro cisgênero e feminino. Criado como princesa, loiro, branco e de olhos claros, cabelos lisos, diferentes dos da mãe, comportamentos masculinos, mais masculinos que os da mãe -  bastante masculina para os padrões de uma mulher. Criança e adolescente que rompeu fronteiras da cisgeneridade, Trans então, como se diz. Queria dizer da sensação que é ter a si mesmo meio tarde, já não tão cedo quanto alguns podem ter. Perder uma família e conquistar uma nova mesma família na vida adulta. Hoje eu sou quem eu sempre quis ser e sou aos poucos reconhecido por eles. Tão tarde os conquisto e me vejo então em História e neles, como parte genética e histórica daqueles corpos tão vivos quanto eu, tão cedo percebo a possibilidade de perdê-los para o Tempo. Minha avó anda se encaminhando pro descanso disso tudo aqui. Me lembro da morte e dos anos que passei tão próximo a ela, ideando diariamente meu próprio fim. Três anos, então. Na lateral da coxa agora a dor e a libertação de todo mal passado. O sol que se abre, o vento que entra, o futuro possível. Me recordo da vida única, diferente de tudo que já provei, no beijo de língua em uma mulher de 80 anos de idade em uma cadeira de rodas performando sua própria morte - para fugir dela. Me recordo das mulheres velhas que me rodeiam e das quais agora me afasto em gênero, me constituindo como alteridade. Recordo as canções de Caetano, Chico, Elis, Milton, Luis Armstrong, Bob Dylan, Mercedez Sosa que me fizeram o berço. Eu leãozinho ninado pelo embalo com tapinhas de minha mãe. Jorra tudo agora diante da preparação da leoa mais velha que logo caminhará em direção ao Sol, se distanciando da nossa manada, deixando nas nossas mãos a grande responsabilidade de dar continuidade ao seu legado de amor e de cuidar das nossas vidas por nós próprios, zelando nossos futuros.



                                    À Helen Puosso, fundamento e firmamento,
                                                           avó, mãe e esposa.

Pelos curranchinhos de galinha chupados, pelos novelas assistidas, pelo dramático jeito de se sentir no mundo; pela fé inabalável, pelo conhecimento firme de que a gente nunca anda só quando tem fé no coração.

domingo, 19 de novembro de 2017

Produção do livro independente

Oficina realizada de outubro a dezembro de 2017 com Fábio Mariano, na Oficina Cultural Oswald de Andrade.

Referências:
Livro arte
Laura Teixeira. Livros de imagens, oficinas de ilustração.
Poemóbiles, de Augusto de Campos de Julio Plaza. Livro objeto.
Boris Fatigati. Produção de livros acessíveis.
Adele Outteridge. Livros objetos criados com material reciclados.

Produção de livros
Aldo Manuzio: editor tipógrafo, livreiro.
Robert Bringhurst. Elementos do estilo tipográfico.
Milton Ribeiro. Planejamento visual gráfico.

Literatura
Celina CAstro. Santos de vento.

Papéis
Distribuidora VSP
Papel manilha ou capagê

Programas
Publisher do programa office


Registro de longo trajeto

Trajetos celulares, antes de um projeto, é um desafio artístico. Cerca de oito meses dedicados à aprender algo que é subjetivo, que não tem uma forma específica, um processo individual e também comunitário, construído como uma colcha de retalhos. Ás vezes, só depois do começo (ou do fim) de uma experiência posso perceber como tudo está interligado e compondo o sonho de me tornar uma artista melhor e mais consciente da minha própria criação. Como objeto final dessa experiência, temos uma websérie e quatro livros artesanais, e é sobre a produção impressa que tenho dedicado minhas pesquisas.

Em 2016, primeiro ano do projeto, as ideias ainda estavam cruas e sem forma, e ao longo dos quase 10 meses que pudemos nos dedicar a dar corpo físico e virtual à uma ideia escrita. Parte desse processo foi a produção de zines, publicações independentes pequenas e de baixo custo, com formatos que desafiam o leitor e proporcionam novas experiências de acessar literatura e imagem. Essa produção intensa deu margem à criação do selo Móri Zines, que também foi um passo em direção a profissionalização e difusão da produção do Chakumbolo (hoje formado por Caio Jade, Nubia Abe e eu, Luara Erremays). Sobretudo ao participar de feiras de publicação, pude perceber o impacto das nossas criações nas pessoas que interagem conosco. Mais do que isso, pude perceber que o contato com literatura e produções marginais, com temáticas que tocam os afetos, gera influência criativa em pessoas que não se sentem artistas e produtores de cultura, por não acessarem o mainstream.
Feira Dente, Brasília, março de 2017.
Estimulada pela oficinas oferecidas no Clube Escola Tiquatira, surgiu o Rexistências Fantásticas, oficina realizada em 7 encontros no Centro de Cidadania LGBT Arouche, em comemoração ao Mês da Visibilidade Lésbica. Nesse ciclo de oficinas, as participantes foram estimuladas a criar uma zine a partir da sua experiência de vida. Foi da maior importância estimular a escuta e a contação de histórias pessoais e íntimas como exercício criativo, e o processo de tornar a verbalização em produto impresso. Vários foram os recursos utilizados, e o trabalho ficou belíssimo. Foi uma dos desenvolvimentos profissionais proporcionados pelo programa VAI.

O curso Produção Gráfica, realizado no Senai Theobaldo de Nigri também financiado pelo VAI, foi fundamental para criar uma noção maior das possibilidades que a indústria gráfica oferece, além de conhecer ferramentas e programas importantes para a criação desses materiais de forma profissional. O contato com as máquinas - das mais antigas e manuais às mais modernas e tecnológicas, o manuseio de papéis, tintas e técnicas de enobrecimento ampliaram a visão restrita que ainda me parecia o todo: além da sulfite e do canson existe larga pesquisa em materiais visando resultados diferentes, incríveis. Ficou evidente também a necessidade de buscar conhecimento institucional a fim de poder criar além das minhas limitações de acessibilidade à tecnologias.

No projeto aprovado em 2017, o lugar confortável que foi construído no contexto das zines precisa ser revisitado com o objetivo de obter ferramentas e habilidades para desenvolver e imprimir livros, formato mais complexo e mais elaborado de publicação. Diferente da zine, que me instigou desejos de experienciar a produção pela minha própria investigação, os livros me fizeram procurar pelo aprendizado e a expansão de habilidades gráficas.

Em primeiro lugar, acredito que frequentar a Folhateria do CCSP, ateliê aberto de xilogravura e serigrafia, me possibilitou conhecer outras formas de impressões alternativas, que se apresentam como formas mais ricas de criar imagens em sequência. Ao longo de 2017 experimentei transformar ilustrações em matrizes de gravura, além de pesquisa sobre tintas, sobreposições e produção em série.

Foi nesse espaço que em outubro comecei o curso Bestiário e códice: o monstro na narrativa gráfica, com Helena Ariano. A partir de técnicas de linoleogravura, o grupo foi estimulado a criar um monstro para compor um bestiário, catálogo de monstros que eram usualmente impressos em gravura na Idade Média europeia. A aproximação com a xilo e a necessidade de me dedicar a uma pesquisa específica, monstros, desenvolveu habilidades como a procura por referências, experimentação de materiais sobre um mesmo tema e desenvolvimento de caderno de estudos. O curso acontecerá até dezembro.

Outro curso, Produção de Livro Independente, iniciado do ateliê de gravura e tipografia da casa de cultura Oswald Andrade com Fábio Mariano tem sido fundamental para começar a dar corpo aos projetos de livros artesanais. O objetivo é criar narrativa, forma e reprodução com recursos analógicos. Desde a criação de margens até escolha de fontes, ilustrações e criação de texto como experiência visual. O curso acontecerá até dezembro.

Sobre as maiores dificuldades de produção, certamente uma das principais é a dificuldade em agrupar de forma eficiente as referências pesquisadas como material de registro de processo. Fica ainda mais forte a necessidade de investigar plataformas virtuais e como usá-las de maneira acessível.

Conhecer idosas, reconhecer caminhos

Numa dessas tardes quentes que fez no nosso inverno, estava voltando para casa meio seca depois de encharcada de chuva atravessar a cidade pelo subterrâneo, levava na bolsa um conjunto de gouaches que me prometiam felicidades mil, e as frutas de dois reais a bacia que o moço vende na saída do metrô. Sempre que posso compro dele. Nunca pedi desconto, ele por sua vez me oferece uma bandeja a mais por metade do preço quase sempre; de sexta ele leva o aparelho de som, que toca reggae e brilha cheio de leds.
Naquele dia, o último lugar vazio era do lado dela. Me disse quais eram as suas frutas favoritas, os pés de planta que tinha no seu quintal, que suco era bom pra cada coisa. Disse que antes só tomava suco Tang e o médico proibiu, daí começou a fazer suco em casa mesmo. E não é só de laranja, não: de pepino, couve, manga, acerola. "Até de babosa dá pra fazer suco, sabia?". Agora nunca deixa de tomar os remédios, mas sabe que os sucos fazem muito bem, e se não fossem eles não teria a saúde que tem.
Me passou seu endereço, me disse para visitá-la com frutas, para a gente conversar e tomar sucos.

***

Enrolei o dia todo para ir ao mercado, e quando saio de casa já passa das 21h30, minha avó não gosta. Vou chegando ao mercado com o passo acelerado, subo a rampa desligada e quando estou quase no topo, percebo aquela senhorinha que não se aguenta em pé. Ofereço meu braço e companhia rampa abaixo, ela diz: "quero sim, hoje tô com as vertige".
Vai me contando, passinho de cada vez, que veio da Amador Bueno pra encontrar o sobrinho, mas ele deu o bolo. Depois de uma certa hora, fecha a saída de pedestres do mercado 24h, temos que entrar e sair pelo estacionamento. Os carros parecem não nos ver, vão tirando finas da dona Tininha que sentencia: "Melhor mesmo é ir pela rua que eles não vão ter coragem de passar por cima". Desiste de esperar o sobrinho, e a acompanho até o ponto de ônibus. Ela insiste que é velha, que pode ir sozinha e minha avó me espera em casa.
Me despeço, ela me abraça com os braços envolta do meu pescoço. Pergunta: "você acredita em trevo de quatro folhas?" digo que sim, ela abre a pochete, tira um saquinho e diz: "pega um aqui. Você bota ele num saquinho dentro da carteira". Pergunto se ela tem telefone: "o meu eu não lembro não, mas é só ligar no segundo batalhão [da PM] e perguntar pela Ti-ni-nha. Todo mundo me conhece lá".

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Tenho aproveitado as tardes existenciais e a internet sem limites para ouvir videos motivacionais no Youtube. Uma mensagem que tem se repetido é a seguinte: "o que você busca está buscando por você". Às vezes me pego idealizando o objeto da minha procura quando sei que só é necessário abrir os olhos e ouvidos para as pistas que os caminhos dão, e desde o começo desse projeto, em 2016, aprendi a abrir minha percepção para mulheres idosas, suas preocupações e ensinamentos. Sejam sucos, trevos de quatro folhas ou a importância da fé em Deus. Pouco importa qual é a narrativa, mas importa que elas narrem, tenham vontade de falar, e que se proponham a abrir suas vidas e saberes a uma estranha no caminho, alterando meu corpo no mundo, trajetos celulares.









sábado, 21 de outubro de 2017

Diário de bordo de Caio Jade

“Somos (...) imortais mesmo que em memórias esquecidas”
(“Oração à vitória” - Baco Exu do Blues)


Foi há poucos anos, e não poderia ser diferente dada minha pouca idade, que tomei consciência do que poderia ser a História, as Ancestralidades. Enquanto caminhava em uma rua de Santo Amaro, em São Paulo, percebi que os passos que eu dava, onde eles cortavam e cruzavam com meu corpo presente, muitos outros seres e histórias já haviam caminhado; percebi que o presente é prenhe de muito passado e experiência, como se o tempo e o espaço fossem feitos de diversas camadas que podemos acessar indiretamente, nas teias do inconsciente, nas percepções largas menos racionais. Memória talvez seja uma tecitura, talvez tenha mais a ver com fiandeiras do que com coleções de álbuns de fotografias guardados em gavetas; talvez ela se esconda, poética, em detalhes quase esquecidos nas poeiras do cotidiano, ou talvez ela se revele viva e ativa nas falas repetidas e persistentes daqueles e daquelas já velhos e velhas que deslocam o real ficcionando outros mundos possíveis com os quais a civilização não quis que nós nos acostumássemos; a juventude é impaciente com a velhice, talvez porque não entenda a poesia da subjetividade daqueles que já marcaram muita terra com os pés, e os rostos com o vento.
Noto nos meus risos, nas minhas lágrimas, uma fome de vida que por anos não foi possível. Olho aqueles e aquelas que se preparam para partir desse mundo e noto a mesma fome brilhando em seus olhos. Talvez a gente nunca desista, talvez a vida seja luta até o último instante. Na infância, na juventude ou na velhice, parte de nós é bicho insaciável que pulsa e sonha vencer a morte; entre desejos e cansaços, nos fazemos imortais.
Caminho pelas ruas, pelos bairros, pelos Estados do Brasil; o fio do corpo fura, corta, se entrelaça com outras tantas milhares inimagináveis malhas de Histórias. Tecidos de sentidos, de sensações, me trazem a certeza de que aquilo e aqueles que parecem miúdos precisam ser ouvidos, que é só a escuta que pode mudar o rumo das coisas e diminuir as desigualdades. A escuta pode nos levar às camadas do que já foi, do que compõe aquilo que agora é. Escuta ativa, participante, como uma fiandeira sentada ao lado da outra em uma fábrica em São Paulo no início do Século XX, como minha avó e sua irmã.

Memória é aquilo que nos veste, nos protege, nos configura, dá forma, prepara quem nós somos e para onde vamos. É presença grávida de passado, sem ser linear. É arbitrária, interpretação ao gosto das paixões, se forja em ringues no inconsciente onde não controlamos nada. Eu gosto é do que chega, do que colocam no mundo. Gosto de ouvir minha vó contando tudo que quer, ver sua fala puxando os ânimos e o resto do seu corpo magro e cheio de dores em gestos. Não tem nada a ver com realidade ou ficção, verdade ou mentira, ou com proximidade com fatos, é o melhor do teatro, como é com todo mundo - em qualquer idade -, é liberdade e subjetividade, precisa ser escutado e acolhido. Seria esse, então, um milagre na poeira do cotidiano, uma história lançada ao vento, ao mar, esquecida entre os fios do destino e que, já não mais fazendo parte do nosso consciente, vai ser parte da nossa imortalidade. Nunca me esqueço do ato epifânico da Maude, no filme “Harold and Maude” do ano de 1971 - brilhantemente traduzido como “Ensina-me a viver”, onde a senhora, já velha, ao receber um presente carinhoso do jovem por quem se enamorara, lança-o ao mar dizendo “agora sempre saberei onde ele está”.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Retomada, recomeço, refazendo tudo

O ano já anda pela metade e sinto agora os primeiros respiros de um novo ciclo. É engraçado olhar para os meus pés e perceber que tem sido poucos os caminhos que posso trilhar, e que um ano depois ainda estou batendo a areia sob meus pés, repetindo ciclos que já vivi, já sei pronde vão e lá vou eu em meu eu oval, rolando vida afora ladeira abaixo.
Estou ouvindo a vhvl e tem esses lances de se identificar muito com alguém de uma maneira tão entregue, que sobra menos tempo pra criticar e ficar achando problema aonde não tem. Ficar vendo a menina lá longe, sendo nova, se crescendo e espalhando num som muito novo e raro; mas também a lentidão dos processos em comparação com os boys amigossonnoros ao redor, então me vejo, eu mesminha, respirando meus tempos tão lentamente enquanto tudo me diz que é pra já, que já está sendo. Percebo esse tempo idade âncora que conforme passa, acrescenta gravidades às escolhas, e de repente passarinho já virou galinha que é metade dinossauro. 
Impossível não pensar que o dito tempo improdutivo que passei e me incita os anseios, era um respiro tão curto nessa terra dura. O que deveria ser rotina, prática, nem precisaria ser citado! mas ocupa dias noites semanas meses tempo enrolado em novelo para apenas gostar de viver eu mesma. É tão difícil saber que existe um mundo exterior real quando aqui dentro são abismos infinitos, muito ar que falta na imensidão. Preciso aprender a mimar quem dorme comigo toda noite, que me abraça, que me mima e tantas vezes odeio, desprezo, maltrato. É preciso ser meu próprio carinho e lugar seguro.
Embora ainda não saiba onde mora esse segredo, tenho pensado e querido cultivar a paciência, apaziguar essa fúria de querer tudo para já ou nunca. Sinto falta dos meus óculos. Labirintos. Outra escolha têm sido as retomadas, passar de novo por caminhos e andar as geografias conhecidas, dar-se tempo de aprender passados. Editar o que existe, nem tudo que é novo é criação.

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Estou, como sempre, nadando num mar de muitas incertezas e tenho tentado achar um emprego, preciso fazer umas granas mais ou menos certa e regular, pagar umas contas, aparar umas arestas que andam me magoando. 
Estou trabalhando seriamente em montar um currículo e portfólios vagamente aceitáveis. Não é um trabalho fácil. Tantas vezes passo por esse caminho, poucas vezes com algum resultado que me agrada. Casa com isso a tentativa de voltar a passar pelas coisas, editar trabalhos, retomar planos parados, ao invés dessa busca incessante pelo novo, sem dar tempo de amadurecer nenhum processo. Ficar com tantos processos mentais sem realizar as coisas, quando só precisava estar realizando uma ou duas pra ter mais vazão energia, tempo, vontade. 
Estou trabalhando nos caderninhos: digitalizar e postar os processos brutos, além de transformar numa publicação sobre a minha experiência de deslocamentos em SP. Isso é um dos pontos tensionados da minha vida: porque sabotar tudo o que começo? Preciso desenrolar a Móri Impressões com amor, dar fim ao trabalho começado, adquirir experiências para o trabalho vindouro. 
Além disso tenho visto pessoas, conhecido gente bacana, indo a novos lugares. Tem sido bom respirar outra cidade, e desejos para o futuro começam a borbulhar. Aprender outras maneiras de experimentar a cidade, e retomar as que já funcionaram antes e podem continuar funcionando agora. Estou sentindo uma energia que andava ausente, mas ainda falta um ponto para recarregar as energias, que certamente é fora, outs. Onde? É preciso procurar. 




quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Oficina de zine - 05fev

A segunda oficina oferecida pelo projeto, sendo a primeira com o tema zine. A princípio, seriam 4 dias de oficinas, divididas em dois momentos: caminhada fotográfica e produção de zines. Com o avanço das pesquisas e a percepção das dinâmicas de tempo, optamos por explorar apenas um tema em cada encontro, sendo duas de fotografia e vídeo no celular, oferecidas por Nubia Abe e duas de zine e publicações independentes, oferecidas por Luara de Almeida.


O intuito foi criar um pequeno ateliê de criação, disponibilizando zines para leitura e consulta, material para desenho e colagem, além de máquina de escrever, impressora e xerox, recursos que foram usados com entusiasmo pelos participantes. O espaço, colorido e bem iluminado, foi convidativo, bem como ter um balcão com alimentos e bebidas. O programa previa um momento para comermos juntos, num pique-nique, mas percebemos que os adultos, em sua maioria responsáveis pelas crianças, se reuniram ao redor do café, criando um outro espaço de intimidades, no qual conversamos, conhecemos histórias e compartilhamos os quitutes, que ocasionou maior liberdade para as crianças interagirem entre si e com as participantes.



A maior dificuldade encontrada foi o quesito divulgação. Uma das estratégias que encontramos foi a inscrição por WhatsApp, e criação de grupos para discutir as temáticas a serem abordadas nas oficinas. Apesar de ter sido veiculada nas redes sociais (Facebook e Instagram), além de cartazes espalhados pela vizinhança, a maior parte do público era composta de pessoas que estavam passando pelo parque durante a atividade e foram convidadas a fazer parte do grupo. Diversas pessoas passaram pelo espaço, sendo que onze delas produziram materiais – em sua maioria crianças. Também por serem grupos espontâneos, surgiu a dificuldade de oferecer uma oficina única e linear; ao invés disso, cada grupo foi recebido pelas integrantes do coletivo, estimulados a produzir individualmente.


A série “O guia definitivo da zine”, criada com o intuito de ser material de apoio para as discussões nas oficinas se tornou uma “lembrancinha”, juntamente com outras zines produzidas durante o projeto. A dinâmica dos grupos não propiciou a discussão teórica, mas creio que em nada diminuiu o valor das produções.
                    

O resultado da oficina foram 11 materiais produzidos, entre colagens, ilustrações e zines. Sobretudo, acredito que o intuito do projeto, de cartografar afetos se fez presente durante as discussões, as conversas compartilhadas, as diversas histórias de pessoas que vieram de longe, como Ferraz de Vasconcelos, as famílias que vão ao parque todo final de semana, conhecer pela narração da sobrinha a história das tias, que querem ser escritora e veterinária, as trajetórias de Dona Ana, que gosta de melão japonês, o ciclista que tem duas filhas felinas e fez uma zine de reconciliação para a esposa. Novamente, nos encontramos num lugar de convergência de histórias, compartilhamento de intimidades, cartografia afetiva.   

domingo, 2 de outubro de 2016

registro de deriva: pra onde vai minha atenção?


comecei no parque os espinhos das árvores as formas os contornos as curvas observando cada árvore cada detalhe como são lindas como são resistentes brigada migas por rexistirem nesse lugar tão uó vocês ahazam muito e o rio ah o rio todo sujo todo fedido tadinho todo cheio de lixos e toda a sorte ou o azar de coisas seguindo a correnteza me chama a atenção uma sacolinha plástica amarela seguindo o fluxo com a água cor de burro quando foge mas não consigo pegar o cel a tempo pra fazer um video um rio nunca é o mesmo rio e um rio numa cidade só piora sorte desse de ainda estar vivo sorte dele de conseguir ao menos ver a cor do céu e algumas árvores e passarinhos tantos outros por aqui não tiveram o mesmo destino "feliz" tantos outros foram soterrados sem dó nem piedade e tão presos embaixo dos nossos pés embaixo de trocentas camadas de concreto esse pelo menos tá "livre" só que não né mas é rio é força é fundamental valeu migo vc é muito importante pro mundo força aí que um dia essa fase ruim vai passar encontro os migos sentamos os quatro numa árvore pra trocar ideias informações estabelecer parcerias diálogos entre projetos momentos agradáveis tempos depois seguimos a vida pelo parque observo as pombas duas delas tão fofas de boas na viga de cimento em cima do rio penso em fotografar mas mudo de ideia pois penso que pombas em cima de vigas é algo tão comum pras pessoas que talvez a imagem não seja interessante mas nesse momento me bateu a atenção pras pombas e a partir daí comecei a observá-las meio que sem querer minha atenção caía sobre elas passamos por uma criança deitada no chão de concreto sendo criança apenas se movimentando de um jeito qualquer sempre tenho vontade de fazer igual mas só pra criança é permitido pq crianças não são levadas a sério aí tudo bem ficar brisando mais adiante uma oferenda pra cosme e damião atravessando a rua um varal de salgadinhos pipocas e amendoins compro dois amendoins e uma pipoca tudo por um e cinquenta pergunto se pode fotografar o varal ele todo temeroso mas gentil rapidamente responde que não pois ele não pode estar ali com esses produtos um cara passa e pergunta pra ele como faz pra carregar bilhete único ele responde que carrega no bolso mesmo me despeço ganho mais uma pipoca continuo observando e tentando filmar as pombas elas são tão lindas tão de boas mas pássaros são criaturas tão ariscas quando outras existências esboçam movimentos de se aproximar eles já fogem bem que fazem tão certos passei um bom tempo tentando me aproximar das pombas e vez ou outra de alguns outros passarinhos coloridos que apareciam mas esses são mais ariscos ainda faço alguns videos que talvez não sejam interessantes pras pessoas pois são só pombas meio de longe andando nas vigas da ponte mas eu gosto e o olhar é meu e o afeto é meu então resolvi fazer porque isso aqui é também sobre o que nos afeta pra onde a gente olha pra onde vai a nossa atenção continuo o trajeto e então surgem os pés de amora algumas no chão gosto do chão olho muito pro chão muitas amoras no chão elas caem e tingem muitas manchas roxas de ex amoras que habitaram esse chão são lindas elas no pé e a imagem esmagada delas no chão é tão linda quanto trágica agora são as amoras esmagadas que me distraem e fico ali durante um bom tempo observando e fotografando as amoras esmagadas as mais recentes molhadas brilhosas mucosas sangue fresco as mais antigas já secas já desaparecendo definhando e as manchas que elas deixam de rastro depois de tudo observo também as flores secas no chão o chão é lindo não consigo parar de me admirar com cada detalhe do chão até com os lixos ah os lixos observo um por um eles não são lindos são sintomáticos a imagem deles é forte as tampinhas de garrafa embalagens bitucas quanto lixo em todos os lugares compõem junto a paisagem um cara sentado vendo o movimento dos carros insanos na avenida me chama e me mostra que mais adiante tem muito mais pés de amora vou seguindo encontro famílias colhendo amoras crianças avós o neto que sobe e chacoalha o pé pra gente pegar as amoras que caem no chão como são frágeis uma queda pode machucar caem muitas a maioria fica ali mesmo no chão salvo algumas as senhoras com potinhos pra guardar as amoras as amoras no asfalto os carros passando sem trégua os passarinhos cantando sigo adiante sinto que é hora de sair do mato de derivar na cidade sigo sem conseguir parar de me admirar com o chão vejo em cada rachadura um universo em cada verde que nasce entre o concreto uma esperança é ridículo mas é bonita essa imagem vejo rios raios raízes crateras superfícies lunares vistas de satélite olhos de et a maneira como as cores dialogam com os traços os ruídos  nas calçadas partidas as árvores sobrevivendo buscando espaço pra que suas raízes possam respirar uns caras sentados numa mesa dentro de um restaurante me chamam e pedem pra que eu tire uma foto deles sigo adiante sendo guiada pelas distrações os troncos das árvores estou na cidade agora mas o mato ainda me chama os troncos um cactus imponente com brotinhos no topo as águas de coco no cercadinho paro no local das águas de coco gostei do lugar as paredes verde e roxas os salgadinhos lucky no varal parece um lugar na beira da praia de cidade pequena o cara que trabalha lá sentado numa mesa olhando a vista que poderia bem ser o mar mas era a avenida onde os carros não param de passar nem por um segundo tem uma árvore enorme na frente do local o tronco dela é tão cheio de detalhes e belezas e dores ela é muito grande o concreto a sufoca tem pregos nela será que ela sente tem o telhado sigo adiante um paredão laranja com uma porta laranja e uma suposta ex porta laranja ao lado mais águas de coco entro na rua das águas de coco os portões grávidos o cachorro manco decido que a partir de agora o cão será meu guia onde ele for eu irei seguimos os cães nas casas latindo muito talvez pelo desejo dessa liberdade sobe desce curva cocô uma kombi simples um cara dentro com uma roupa colorida produtos de limpeza o cachorro me levou até o cara o mesmo que falávamos na reunião na árvore que dizias que querias acompanhá-los um dia o cara dos ovos esse cara algum desses mas que nunca tinha dado tempo de chegar até eles quando eles passavam lá esse é o cara que circula pelo bairro vendendo produtos de limpeza multicoloridos pra senhoras donas de casa jovens adultos falando no megafone paro pra trocar uma ideia com o cara ele é ótimo combinamos de um dia acompanhar o trajeto filmando.




terça-feira, 27 de setembro de 2016

karol maia // nossa história invisível



A coisa mais legal do VAI tem sido encontrar um monte de gente mais ou menos da minha idade, fazendo coisas maravilhosas com baixos recursos. Conheci a Karol através de seu incrível projeto Nossa História Invisível.  Há algumas semanas, fui ver a estreia da websérie no Matilha Cultural, sala cheia, foi muito lindo. Estamos conversando sobre várias coisas desde o começo do projeto e hoje rolou um skype firmeza com várias referências e dicas pra ajudar a pensar o processo (que me deu vontade de ter mesmo um projeto skype sessions pra conversar sobre temas específicos, trocar uma figurinha, etc). 
Começamos falando sobre o projeto e anotei coisas que ela sugeriu ou achou da nossa proposta:
  • pré-entrevista: antes de ligar a câmera, conversar para descobrir histórias e informações para serem usadas durante a entrevista;
  • saber que as pessoas podem ficar tímidas e não conseguir falar, portanto
  • o gravador pode ser um bom aliado;
  • fábrica de pixe: a narração de uma história na qual diversos relatos se complementam;
  • intercâmbio de fotos: ter fotos armazenadas de outras entrevistadas para serem disparadores dos relatos;
  • fazer a takes da pessoa atuando, ex. olhando para o vazio, andando na rua, interagindo com objetos;
  • quanto mais imagens melhor;
  • pode ser interessante a perspectiva do jovem: o bairro que deixa de ser lar para ser hotel, a vida transcorre no centro;
  • bom termômetro de passagem do tempo, transformações urbanas.
Depois rolaram várias referências legais:

Cultura das bordas, projeto dela sobre moradores personagens do bairro.

Gostei muito, especialmente do episódio do Luis Fernando. Fiquei toda mole e emocionada, transbordou ternura em cores vibrantes, achei tudo muito lindo esteticamente. Achei ele um personagem bem atemporal, um retrato tão real e possível de juventude. Mas a série toda é belíssima, me deu vontade de abraçar todo mundo.

Video poesias, de Goldlink pela rubberband.
São videos maravilhosos, a voz dele é incrível, mas eu não entendo inglês. Sempre dá essa sensação que bato na borda da piscina e volto, nesses mesmos lugares. Preciso aprender essa lingua. Me lembrou os slams, me fez lembrar a necessidade que eu tenho tido de voltar a trabalhar com a palavra, o desejo pela palavra falada. 

Flâner, de Cecile Emeke.
Bastante planos de pessoas atuando. É uma webserie de 4 episódios sobre negritude na França, que faz parte da strolling series, "conectando as histórias dispersas da diaspora negra". É um projeto maravilhoso, múltiplas perspectivas de referências negras não eua-centrada. Me fez pensar sobre como eu não sei nada a respeito dos fluxos de haitianos e várias identidades africanas que existem em SP.

Continue curioso, também pra reparar nos planos de ação. Fofo. 

Staff riding, o video favorito dela.
É muito maravilhoso, sobre surfistas de trem na África do Sul. Mais um retrato muito real de juventude, é muito potente ouvir discursos da juventude sobre a morte. Esteticamente, o curta é incrível, as construções de urbanidades com mapas, vistas dos trens e fluxos de pessoas. Gostei muito, gostaria de filmar pessoas andando nas ruas do bairro.

Brandon Stanton, do projeto Humans of New York.
Acho muito legal quando a proposta cria alguma intimidade entre espectador e personagem, principalmente quando é uma pessoa que eu dificilmente encontraria no rolê. Acho que é uma atmosfera legal pra entender melhor outros mundos.
Bônus: ele ensinando a chegar junto nos humanos de nova iorque. Achei muito legal encontrar isso nessa altura do campeonatinho.

Um dois tres e ja, não lembro o porquê desse
É uma série da Galeria Experiência, laboratório fotográfico na Vila Madalena, sobre memórias de infâncias. Esse é do Jun Matsui tatuador muito sério - que eu nem conhecia - de SP. Achei bonito como um video curto consegue ir bem fundo tão rápido. Fiquei pensando sobre a possibilidade de entrevistar pessoas nas ruas para fazer videos drops.

Hélio Leites.
A Márcia Cardeal, que é muita alumi
ação na minha vida, já tinha me falado dele, e eu nunca tinha visto nada sobre o artista das miudezas, das coisas cotidianas, inutensílios. "A  tristeza mostra pra gente coisas que a alegria não deixa ver".

Charlotte SP, filme nacional gravado com celular, acabou de estreiar. Queria que alguém me convidasse pra ver e pagasse meu ingresso, que eu nunca vou ao cinema, não queria gastar meus pobres golpinhos pra ver vida de modelo e seus migos ricos.


Tá bom ou quer mais? Em quarenta minutos de conversa. Tá, meu bein?